Periodontite em diabéticos pode ser tratada com aspirina e ômega 3?

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Um estudo brasileiro publicado no Journal of Periodontology concluiu que a associação de suplementos de ômega-3 e comprimidos de aspirina ao tratamento convencional para periodontite obtêm melhores resultados clínicos em diabéticos, ajudando no controle da glicemia.

“Periodontite e diabetes são enfermidades muito comuns na população brasileira e, muitas vezes, ocorrem juntas. É, portanto, de grande interesse encontrar um tratamento relativamente barato e com poucos efeitos colaterais que ajude a combater os dois problemas ao mesmo tempo”, comenta a pesquisadora Nidia Cristina Castro dos Santos, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp), em São José dos Campos, principal autora do trabalho.

Como foi realizado o ensaio clínico

Foram recrutados 75 pacientes com periodontite de moderada a grave e diabéticos tipo 2, grande parte deles com a enfermidade descompensada, para a realização de um ensaio clínico randomizado.

Os participantes foram divididos em três grupos: o primeiro, utilizado como controle, foi submetido apenas a uma raspagem. O segundo ingeriu uma combinação de 3 gramas de óleo de peixe e 100 miligramas de aspirina por dois meses após a realização de uma raspagem no local. Já o terceiro ingeriu a mesma dose medicamentosa pelo mesmo período, mas antes realizar o procedimento.

Os resultados foram superiores aos dos voluntários que fizeram apenas a raspagem nos dois grupos submetidos à abordagem combinada.

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Contudo, a utilização da suplementação de ômega 3 após a raspagem obteve resultados melhores com uma taxa de sucesso de 40% no tratamento, contra 16% no grupo controle.

Além disso, os níveis de interferon-gama (IFN-γ), interleucina 1-beta (IL-1β) e interleucina 6 (IL-6), três substâncias envolvidas em processos inflamatórios, foram reduzidos, além de ser observado uma queda no nível de hemoglobina glicada no sangue.

A inflamação é o elo entre a periodontite e o diabetes

Estima-se que a periodontite severa atinja 11% da população adulta, chegando a 32% nos diabéticos. Tanto o diabetes aumenta a severidade e a frequência da doença periodontal quanto à periodontite influencia negativamente no controle da glicemia. A resposta dessa ligação perigosa é a inflamação.

A alta concentração crônica de açúcar no sangue leva a um estado inflamatório sistêmico, que facilita o aparecimento da periodontite, além de impedir uma ação adequada da insulina, piorando o metabolismo da glicose.

Por outro lado, o ômega-3 possui reconhecida ação na resolução da inflamação. Aliás, um grupo de pesquisadores do The Forsyth Institute, da Harvard University, localizado em Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos, já havia demonstrado que a substância ajuda no controle da doença gengival em pessoas sem diabetes.

“Ele é um substrato para a produção de lipídios como as resolvinas e maresinas, que coordenam a resposta inflamatória. É como se esses lipídios “organizassem” a inflamação criada pelo sistema imune”, destaca Nidia Cristina Castro dos Santos, que realizou estágio no The Forsyth Institute.

Já a aspirina parece potencializar a síntese desses lipídios, melhorando a sua ação. Tanto que existe uma espécie de resolvina chamada de triggered by aspirin resolvin (resolvina desencadeada pela aspirina), que é mais potente e eficaz do que a comum.

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Vantagens do tratamento

Esse novo tratamento é considerado mais acessível e com melhor custo-benefício para a população com baixa renda, uma vez que o óleo de peixe e a aspirina são relativamente baratos e encontrados com facilidade nas farmácias.

O tratamento convencional com a raspagem é bastante eficaz, mas muitas vezes precisa ser complementado com antibióticos. Contudo, a periodontite pode voltar e, ao longo dos anos, o uso indiscriminado de antibióticos gera resistência no organismo, o que diminui o efeito do medicamento.

Outro ponto positivo é que tanto o ômega-3 quanto a aspirina apresentaram poucos efeitos colaterais relevantes. Somente o uso prolongado da aspirina é que pode causar um risco de sangramento gastrointestinal nos pacientes.

Por fim, outra vantagem da associação medicamentosa é que os pacientes necessitam ingerir uma menor quantidade de medicamentos para controlar o diabetes.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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