Posso usar ertapenem por via subcutânea em idosos?

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O uso da via subcutânea (SC) é uma prática que vem ganhando destaque nos últimos anos, principalmente nos ramos de Geriatria e Cuidados Paliativos, como forma de substituição da via intravenosa em pacientes de difícil acesso venoso.

Muitas drogas, inclusive antibióticos, podem ser administradas por via SC (hipodermóclise), sendo uma boa opção para o tratamento de infecções em contextos específicos. Aminoglicosídeos, ceftriaxone, cefepime, ampicilina e teicoplanina são exemplos de antimicrobianos em que o uso da via SC já foi estudado.

Em teoria, o uso da via SC está associado a menor concentração de pico e a um maior tempo para alcançá-la, mas a AUC e o tempo em que a concentração de antibiótico está acima da MIC permanecem os mesmos em relação ao uso da via intravenosa. Essas características permitiriam que antibióticos tempo-dependentes, como os betalactâmicos, fossem administrados por hipodermóclise. Ao mesmo tempo, faz com que essa seja uma via inadequada para os antibióticos concentração-dependentes, como os aminoglicosídeos.

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Indivíduos idosos apresentam infecções de forma mais frequente e, por vezes, mais graves. Além disso, se apresentarem exposições repetidas a antibióticos, podem possuir maior risco de infecções por organismos resistentes, como enterobactérias produtoras de ESBL, para as quais ertapenem é uma opção de tratamento.

A presença de comorbidades, uso concomitante de outros medicamentos e desnutrição são alterações comuns que podem influenciar as características de farmacocinética e farmacodinâmica (PK/PD) dos antimicrobianos e, com isso, sua eficácia clínica.

Uso do ertapenem por SC

Um estudo francês buscou estudar as características de PK/PD do ertapenem por via SC nessa população específica para avaliar a possibilidade de seu uso.

Foram recrutados pacientes com 65 anos ou mais que estavam recebendo ertapenem 1 g, IV ou SC. A via de administração foi escolhida pelo médico assistente antes da entrada no estudo. Além de amostras de sangue para análise dos níveis séricos de ertapenem, os participantes foram acompanhados por 15 dias após o fim do tratamento para avaliação de tolerância local e sistêmica.

Foram avaliados os dados de 26 pacientes no total: 10 no grupo que recebeu ertapenem por via IV e 16 no grupo que recebeu o fármaco por via SC. Características demográficas e nutricionais, a presença de comorbidades e função renal foram semelhantes entre os grupos, com uma média de idade de 88 anos e desnutrição em metade dos casos.

Resultados

Os focos infecciosos mais frequentes foram urinário e pulmonar e Escherichia coli foi o agente mais comumente isolado. Ao final do tratamento, 22 pacientes sobreviveram, sendo 21 considerados livres de infecção. Após 15 dias do fim do tratamento, 7 pacientes haviam morrido: 4 devido a episódios infecciosos (2 em cada grupo).

Em relação os dados de PK/PD, os alvos foram semelhantes entre as vias IV e SC. O número de pacientes que falharam em atingir concentrações de ertapenem maiores do que a MIC por mais de 40% do tempo (considerado o melhor parâmetro para avaliação de antibióticos betalactâmicos) não foi diferente entre os grupos.

Pelos resultados, a probabilidade de alcançar esse alvo foi de quase 100% para uma MIC <1 mg/L. Entretanto, o tempo necessário para que uma concentração sérica acima da MIC fosse alcançada foi maior pela via SC, o que sugere que o início do tratamento seja feito por via IV, principalmente em caso de infecção grave. Ademais, os autores ressaltam que, em situações de infecções graves, a via SC não deve ser usada.

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O pequeno número de participantes e a ausência de randomização são características que prejudicam a análise dos resultados, já que diferenças entre os grupos podem não ter sido identificadas. Da mesma forma, o tamanho da amostra não permitiu uma adequada avaliação de eventos adversos, mas a via SC foi bem tolerada no estudo.

Esse estudo apresenta evidências que apoiam o uso de ertapenem por via SC na população idosa. A administração por hipodermóclise se constitui uma alternativa atraente às vias IV e IM nessa população, em que a dificuldade em se obter acesso venoso e a preocupação em minimizar procedimentos dolorosos são frequentes. Embora mais estudos sejam necessários, os resultados são promissores.

Autor:

Referência bibliográfica:

  • Baudron CR, et al. Is the subcutaneous route na alternative for administering ertapenem to older patients? PHACINERTA study. J Antimicrob Chemother 2019; 74: 3546–3554 doi:10.1093/jac/dkz385
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