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Doença do Enxerto versus Hospedeiro

Quais são os achados oculares da doença do enxerto versus hospedeiro?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Sabemos que o transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas vem sendo realizado para vários distúrbios hematológicos, sendo as células doadoras coletadas da medula óssea, do sangue periférico ou do cordão umbilical. Uma complicação intitulada de Doença do Enxerto versus Hospedeiro (do inglês Graft versus host disease – GVHD) vem restringido a disseminação desse transplante por ser importante causa de morbidade e mortalidade entre os pacientes submetidos ao tratamento.

A GVHD é uma resposta linfocítica mediada por células T doadoras dirigida contra tecidos hospedeiros considerados estranhos. Sua incidência varia em 10 – 90% dos pacientes submetidos ao transplante alogênico. Os órgãos alvo são principalmente a pele, o sistema gastrointestinal, os pulmões, a mucosa oral, o fígado e os olhos.

A GVHD aguda geralmente acomete a mucosa oral, o sistema gastrointestinal, a pele e o fígado. Já a GVHD crônica afeta principalmente os pulmões, os olhos e o intestino. Os fatores de risco para o desenvolvimento da GVHD incluem: doadores incompatíveis, idade avançada de receptor, doadora feminina para receptor masculino e células doadoras de sangue periférico. Células T derivadas do doador são as principais responsáveis pela patogêneses da doença.

Manifestações oculares da Doença do Enxerto versus Hospedeiro

As manifestações oculares ocorrem principalmente na forma crônica da doença em mais de 60% dos pacientes acometidos. O desenvolvimento da doença ocular anteceder a doença sistêmica, além de ser um indicador de maior mortalidade. As estruturas mais afetadas são as glândulas lacrimais e de meibomius, a conjuntiva e a córnea. Olho seco é o achado ocular mais comum, estando presente em até 90% dos casos. Os sinais e sintomas incluem hiperemia conjuntival, sensação de corpo estranho, epífora, fotofobia, embaçamento visual e sensação de queimação.

As glândulas lacrimais são alvos importantes da inflamação na GVHD ocular, que reduz sua capacidade secretória e oblitera os lúmens de seus ductos, gerando uma insuficiência aquosa grave na superfície ocular. Além disso, há comprometimento da função das glândulas de meibomius e das células caliciformes, contribuindo para a disfunção do filme lacrimal. Por esses motivos instala-se um quadro grave de ceratoconjuntivite sicca. A ceratite ponteada difusa, filamentos, erosões corneanas recorrentes, infecções e até perfurações na córnea podem ocorrer relacionadas às condições da superfície ocular. Pode ocorrer um quadro de conjuntivite estéril, com hiperemia, quemose, secreção, pseudomembranas e defeito epitelial corneano. O acometimento conjuntival está relacionado com maior taxa de mortalidade.

O desenvolvimento de catarata, principalmente subcapsular posterior, se deve ao uso sistêmico de corticosteroides. Deve se tratar a superfície ocular no pré-operatório de facectomia desses pacientes. O segmento posterior é afetado em mais ou menos 10% dos pacientes, podendo haver descolamento seroso da retina, edema de papila, esclerite posterior e endoftalmite.

Para o diagnóstico de GVHD ocular crônica é necessário o acometimento de GVHD crônica em outro órgão diferente dos olhos e acompanhado por: (1) novo quadro de ceratoconjuntivite sicca, documentada com teste de Schirmer médio bilateral ≤ 5 mm em 5 minutos, ou (2) novo quadro de ceratoconjuntivite sicca com teste de Schirmer bilateral médio entre 6 – 10mm, não proveniente de outras causas. O grupo de diagnóstico e estadiamento da NIH desenvolveu um sistema de graduação por órgão para GVHD, sendo que para os olhos é baseada em: presença de ceratoconjuntivite sicca diagnosticada por um oftalmologista, frequência de instilação de colírios lubrificantes ao dia e o impacto da ceratoconjuntivite sicca nas atividades diárias.

Existem diversas opções de tratamentos tópicos como: colírios e pomadas lubrificantes, corticosteroides tópicos, ciclosporina, tacrolimus e soro autólogo. O uso de lentes de contato esclerais e procedimentos cirúrgicos como oclusão de ponto lacrimal e tarsorrafia podem ser necessários. Umidificadores e óculos com câmara úmida podem ser utilizados por pacientes sintomáticos e que frequentam ambientes com vento e clima seco. O uso de compressas mornas, higiene palpebral e uso oral de tetraciclinas auxilia o tratamento das alterações da glândula de meibomius. Em muitos casos o manejo da superfície ocular é difícil.

A qualidade de vida é gravemente comprometida nesses pacientes e a condição crônica associada a dor ocular importante da superfície ocular piora esse quadro.

LEIA TAMBÉM: Manifestações dermatológicas na doença do enxerto versus hospedeiro

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Referências:

  • BUD, Tulio Batista et al . Graft-versus-Host Disease: Review. Rev. bras.oftalmol., Rio de Janeiro , v. 78, n. 1, p. 65-70, Feb. 2019.

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