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Criança brinca em casa durante o fechamento das escolas primárias na Covid-19

Reabertura das escolas primárias durante a pandemia

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Artigo recente publicado pelo New England Journal of Medicine aborda a questão do retorno às aulas em tempos de pandemia pela Covid-19. Nos últimos meses, gestores e serviços de saúde têm debatido exaustivamente a questão economia versus saúde pública, relacionada às limitações individuais e coletivas no sentido de controlar a doença. Segundos os autores, a ausência da escola, enquanto espaço físico, pode acarretar em déficits educacionais, sociais e no desenvolvimento das crianças. Por isso, a reabertura segura das escolas primárias deve ser uma pauta prioritária.

Muitos pais e educadores, no entanto, mantêm-se preocupados, questionando se os planos de reabertura em larga escala podem, de fato, garantir a segurança dos alunos, professores e dos contatos domiciliares dessas crianças, dados os altos níveis de transmissão comunitária em diversas regiões. A questão do contágio é particularmente mais delicada nas escolas localizadas em áreas mais carentes, uma vez que, nesses espaços, frequentemente observa-se salas de aula abarrotadas e insuficiência de pessoal para trabalho, estando assim sob maior risco para disseminação da Covid-19.

O melhor caminho para reabertura deve contar, primeiramente, com a redução das taxas de transmissão comunitária através de medidas de controle rigorosas (e as evidências mostram que é possível) para que a reabertura ocorra com um nível aceitável de segurança. Mesmo em situações de taxa de transmissão moderada (quando há menos de dez casos para cada 100 mil habitantes), os autores acreditam que as escolas primárias devem ser reconhecidas como serviços essenciais para que planos de reabertura possam ser desenvolvidos e financiados adequadamente.

Leia também: Pesquisa nos EUA mostra que 31% dos pais manteriam seus filhos longe da escola

Motivos educacionais para a reabertura das escolas primárias

Dentre os motivos citados pelo artigo para presença das crianças no ambiente escolar estão: perda de aprendizado socioemocional, relacionamento interpessoal quando as crianças passam muito tempo em casa, oportunidades para brincadeiras (especialmente para aquelas em situação de pobreza), melhor nutrição (relacionado à merenda escolar), além das escolas oferecerem atividades promotoras da saúde física e mental. Por fim, o artigo também cita o fato das escolas abertas serem essenciais para que muitos pais e tutores (especialmente mulheres) sejam reinseridos no mercado de trabalho – inclusive no setor da saúde. Além disso, milhares de crianças são excluídas do processo de ensino quando este passa a ser virtual e muitas delas têm dificuldade ao acesso e ausência de suporte adulto em tempo real. O aprendizado, para ser de boa qualidade, está intimamente ligado às relações e à sociabilidade, e não a um modelo individualista e centrado no professor. Os professores, inclusive, se apoiam na proximidade física para construir relações positivas com seus alunos e conduzir suas aulas.

Aspectos clínicos

Em relação às perspectivas clínicas e epidemiológicas, sabemos que a maior parte das crianças entre 1 e 18 anos de idade são assintomáticas ou apresentam sintomas leves quando infectadas pela Covid-19, além de serem menos predispostas a complicações severas da doença, ao contrário do que ocorre em adultos. Apesar de um pequeno número de pacientes na faixa pediátrica ter sido hospitalizado devido à síndrome inflamatória multissistêmica (MIS-C) após infecção pelo SARS-CoV-2, ao que parece, esta é uma síndrome rara (com dois casos relatados a cada 100 mil indivíduos menores de 21 anos entre 1 de março a 10 de maio de 2020), e que com diagnóstico e tratamento precoces tem apresentado desfecho favorável. Por outro lado, adultos, especialmente os maiores de 60 anos ou com comorbidades, estão em alto risco para desenvolvimento da forma grave da doença pelo novo coronavírus.

Novos estudos sugerem que a susceptibilidade à infecção tende a aumentar de acordo com a idade. Os achados mostram que crianças podem ter menor potencial de infecção do que adultos, porém as evidências ainda são fracas e alguns dos estudos foram conduzidos quando as escolas já estavam fechadas. Outro estudo recente, da Coreia do Sul, sugere que crianças menores de 10 anos infectadas transmitem menos o vírus do que adultos.

Esses achados são compatíveis com dados de transmissão escolar e comunitária de países que reabriram escolas (ou nunca as fecharam). Surtos de Covid-19 nas escolas de ensino médio em países como França, Israel e Nova Zelândia não se estenderam às escolas primárias, o que sugere que a susceptibilidade e transmissibilidade são mais baixas em crianças mais jovens.

Veja mais: Recomendações da OMS e da UNICEF para o uso de máscaras por crianças e adolescentes

Medidas seguras para a volta às escolas

O texto reforça que a maneira mais segura para reabertura total das escolas se dá a partir da redução ou eliminação da transmissão comunitária, simultânea ao aumento da testagem e vigilância. Adultos precisariam manter o distanciamento social recomendado e se empenhar na prática das outras medidas de segurança, tais como uso de equipamento de proteção pessoal, proibição de entrada na escola de adultos que não são da equipe escolar e realização de reuniões de maneira virtual. Outras modificações da estrutura escolar citadas são: alunos e professores realizariam as refeições dentro de suas próprias salas de aula, bem como salas de reuniões deveriam permanecer fechadas para desencorajar aglomeração de adultos. Tais precauções são importantes uma vez que parte do corpo docente é composta por professores com 55 anos ou mais (17,5%, nos Estados Unidos). Os autores acreditam que as escolas poderiam ainda oferecer instrução apropriada para todos os estudantes, a fim de evitar expor educadores e familiares a riscos indevidos.

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Conclusão

Para a sociedade em geral, as medidas de controle também devem ser rigorosas, e incluem o uso constante de máscaras e fechamento de estabelecimentos não essenciais e áreas de lazer. As evidências epidemiológicas mostram que as taxas de mortalidade poderiam cair em até 90% em nove a 11 semanas após estritas medidas de controle serem iniciadas. Aos lugares que se recusarem a implementar essas normas, por outro lado, irão enfrentar um grande dilema moral e social: como pesar os já sabidos riscos às crianças, famílias e sociedade relacionados ao fechamento das escolas contra os riscos desconhecidos da reabertura em um momento em que ainda há alta taxa de circulação do vírus?

Quando e como reabrir as escolas primárias não se trata apenas de uma questão científica, mas acima de tudo emocional e moral. O fato de que crianças, famílias, educadores e sociedade têm o direito a ter escolas seguras e confiáveis não deve ser motivo de controvérsia. Partindo desse pressuposto, não há razões para que serviços não essenciais permaneçam abertos para os adultos enquanto as crianças são obrigadas a permanecerem em suas casas.

Autor:

Referência bibliográfica:

  • Meira Levinson, Muge Cevik, and Marc Lipsitch. Reopening Primary Schools during the Pandemic. N Engl J Med. Jul 29 – 2020; 383:981-985.

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