Home / Colunistas / Um novo fator de risco para a Covid-19: a pobreza

Um novo fator de risco para a Covid-19: a pobreza

Sua avaliação é fundamental para que a gente continue melhorando o Portal Pebmed

Quer acessar esse e outros conteúdos na íntegra?

Cadastrar Grátis

Faça seu login ou cadastre-se gratuitamente para ter acesso ilimitado a todos os artigos, casos clínicos e ferramentas do Portal PEBMED

“A Covid-19 não discrimina classe social”. Essa frase tem sido pronunciada inúmeras vezes em diversos meios de comunicação como forma de indicar a significância e a importância da atual síndrome pandêmica Covid-19, associada ao coronavírus SARS-CoV-2, surgida desde dezembro de 2019 em Wuhan, China. Tão controversa quanto o significado dessa afirmação, há um aspecto importante de discriminação intrínseca em suas palavras: as doenças não são mais ou menos importantes por atingirem somente “categorias” da população. E deveriam, assim como várias doenças negligenciadas, assumir um papel de maior atenção e foco quando acometem a maior parte da população mundial, especialmente caracterizada pelos socioeconomicamente desfavorecidos, ou os pobres (Patel et al., 2020; Pagel, 2021). É facilmente reconhecido que a maior vulnerabilidade de morbidade e mortalidade para a Covid-19 está relacionada e potencializada com a ocorrência da pobreza devido a diversos fatores:

  • Menor capacidade econômica de adesão a planos de saúde;
  • Menor acesso aos serviços de saúde de qualidade;
  • Maior atraso na busca por assistência em saúde;
  • Maior concentração do trabalho informal;
  • Maior concentração de empregados (não empregadores);
  • Menor qualidade educacional;
  • Possível menor adesão aos autocuidados ou orientações em saúde;
  • Maior concentração de co-habitantes por metro quadrado onde habitam;
  • Maior dependência do comércio de rua e/ou de contato profissional com o público;
  • Menor possibilidade de homework ou isolamento profissional;
  • Menor acesso a testagem para Covid-19;
  • Menor qualidade nutricional;
  • Maior risco de doença cardiovascular, obesidade e diabetes e outras comorbidades;
  • Menor infraestrutura habitacional e saneamento básico;
  • Maior limitação de circulação devido ao controle regional por “autoridades” locais não governamentais;
  • Maior exposição a violência;
  • Menor poder aquisitivo para medidas emergenciais ou adaptativas;
  • Maior número de horas trabalhadas;
  • Menores condições de segurança no trabalho e habitação;
  • Maior concentração de indivíduos em circulação por transportes públicos;
  • Menor acesso aos cuidados de Saúde Mental;
  • E outros.

Leia também: EAP 2021: impacto da pandemia de Covid-19 no follow-up pediátrico

Consequentemente, assistimos a tragédia da Covid-19 alcançar níveis significativos de óbitos por 100.000 habitantes especialmente entre populações menos favorecidas economicamente em diversas localidades como Estados Unidos da América (EUA), Índia, América do Sul (especialmente o Brasil) e outras. Tem sido observado o dobro de admissões em unidades de tratamento intensivo e óbitos por Covid-19 quando o nível socioeconômico dos doentes é caracterizado como baixo (Pagel, 2021; Sandhu et al., 2021; Siino, 2021). Sandhu et al. (2021), descreveram a ocorrência de maiores taxas de mortalidade por Covid-19 entre indivíduos vulneráveis com pior status socioeconômico (pobres, desempregados, baixa renda per capita e/ou baixo nível educacional) admitidos em hospitais na área de Detroit, EUA, e estas taxas não estariam relacionadas à questão racial ou sexo dos doentes.

Um novo fator de risco para a Covid-19: a pobreza

Complicações

Adicionalmente ao fator doença, com todas as complicações inúmeras existentes, as adequadas medidas de contenção da disseminação da Covid-19 adotada por muitos governos — os variáveis graus de lockdown — agravaram amplamente o enraizamento da pobreza ou a regressão significativa das melhorias obtidas nos últimos anos. Estamos também assistindo a um aumento importante da incidência de transtornos associados à Saúde Mental entre os indivíduos que vivem em situação da pobreza, devido a elevação do estresse e isolamento social e econômico, resultando em disfunção imunitária e maior susceptibilidade a uma variedade de doenças infecciosas e doenças crônicas não infecciosas. Não é incomum observamos diversos relatos de casos que buscam os serviços de saúde somente nos estágios avançados da doença, com consequente maior dificuldade de recuperação e piores prognósticos. Adicionalmente, o abismo entre os ricos e economicamente favorecidos e aqueles indivíduos não favorecidos tem sido exposto e intensificado em praticamente todas as manifestações sociais da Covid-19. Siino (2021) avaliou o alto risco de desestruturação social frente a emergência da Covid-19 na cidade de Palermo, Itália, na forma de estudo de caso. Assim como ocorre no território brasileiro, os fatores sociais (incluindo a violência e o crime organizado) na Sicília afetam consideravelmente as classes econômicas mais vulneráveis, e resultaram no agravamento das dificuldades no combate à Covid-19 e aprofundamento das mazelas locais.

Consequências

Os cuidados em saúde dos profissionais com seus pacientes não existem no isolamento estrito, sem comunicação. Observa-se que para a melhor condução do tratamento da Covid-19, a assistência diária, mesmo que por contato telefônico, é importante e favorece os melhores desfechos pela detecção precoce de intercorrências ou sinais de agravamento. Portanto, a ocorrência de atos de discriminação, em qualquer grau, cria distâncias substanciais entre médico/enfermeiro e o paciente, e perdura a continuidade da Covid-19, com consequentes piores desfechos para os indivíduos e a sociedade. Atualmente, as dificuldades de acesso à distribuição da vacinação igualitária podem também sacramentar e/ou direcionar a perpetuação e a concentração da Covid-19 junto a pobreza. Há um risco real, e talvez inevitável de aprofundamento na fragmentação social, pode-se romper a coesão do tecido social com consequências drásticas importantes e em diversos níveis para a geração atual (Patel et al., 2020; Pagel, 2021; Siino, 2021).

Saiba mais: Covid-19: lei indenizará profissionais da saúde incapacitados pela doença

Todos esses fatores somados favorecem atualmente a inclusão da pobreza ou do baixo nível socioeconômico como mais um fator de risco para a maior morbidade e mortalidade pela síndrome da Covid-19.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Pagel C. There is a real danger that covid-19 will become entrenched as a disease of pov erty. BMJ. 2021 Apr 19;373:n986. doi: https://doi.org/10.1136/bmj.n986
  • Patel JA, Nielsen FBH, Badiani AA, Assi S, Unadkat VA, Patel B, Ravindrane R, Wardle H. Poverty, inequality and COVID-19: the forgotten vulnerable. Public Health. 2020  Jun;183:110-111. doi: 10.1016/j.puhe.2020.05.006
  • Sandhu A, Korzeniewski SJ, Polistico J, Pinnamaneni H, Reddy SN, Oudeif A, Meyers J, Sidhu N, Levy P, Samavati L, Badr MS, Sobel JD, Sherwin R, Chopra T. Elevated  COVID19 mortality risk in detroit area hospitals among patients from census tracts with ex treme socioeconomic vulnerability. EClinicalMedicine. 2021 Apr;34:100814. doi: 10.1016/j.eclinm.2021.100814
  • Siino AR. The Covid-19 Emergency and the Risk of Social Fragmentation in the Palermo Case. Front Sociol. 2021 Jan 6;5:624160. doi: 10.3389/fsoc.2020.624160

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Entrar | Cadastrar