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Violência obstétrica: precisamos falar sobre isso

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Para compreender a violência obstétrica (VO) e o parto humanizado precisamos ter em mente que o parto não é um fenômeno apenas fisiológico. É um evento social e cultural complexo, dependente da experiência íntima, pessoal, sexual, emocional e espiritual de cada grávida e das pessoas envolvidas no momento do parto. Depende das interações entre indivíduos, grupos sociais e instituições, com poderes e legitimidades diferenciadas¹.

Além disso, é necessário entender onde surgiu esse movimento no Brasil e porquê. Afinal, se existe a necessidade de debater o tema violência obstétrica e criar diretrizes sobre assistência humanizada à gestante, algo de errado aconteceu na formação dos profissionais de saúde e na maneira como prestamos assistência médica. Mas seríamos nós, obstetras, os únicos responsáveis pela VO?

paciente em parto levanta o tema de violência obstétrica

Violência obstétrica

A falta de leitos, de equipe multidisciplinar especializada e de estrutura das maternidades também colaboram para uma experiência negativa do parto e, em inúmeros casos, os obstetras não têm autonomia para resolverem essas questões, ficando de mãos atadas. A ignorância das famílias sobre o processo gestacional, parto, puerpério, amamentação e cuidados com o recém-nascido também levam à violência – nem sempre obstétrica, claro. A violência pode atingir o binômio em questão tanto pelo obstetra, quanto pela instituição e pelos demais profissionais que prestam assistência à gestante.

Sabendo disto, vamos retornar à origem do problema. O primeiro é a falta de instrução da população brasileira. Sem conhecimento é impossível questionar o tratamento, assim, o médico exercia a medicina de modo paternalista, com total autonomia e autoridade. Hoje, estamos passando por um processo de mudança devido ao acesso da população à informação através da internet. Os pacientes querem e têm o direito de discutir as condutas médicas juntamente com ele. Essa disrupção levou a um choque cultural. O médico foi treinado a agir de modo paternalista, mas o paciente não quer mais este tipo de assistência. Essa mudança ocorreu primeiramente na obstetrícia, com as denúncias de violências obstétricas e as solicitações de partos humanizados.

Mas, afinal, o que é parto humanizado?

É o parto em que a mulher tem autonomia, informação, assistência multidisciplinar, e é atendida com respeito, empatia e com condutas baseadas em evidências científicas. Além disso, o recém-nascido também deve ter uma recepção humanizada, realizar o pele-a-pele e ficar com a mãe durante toda a internação para estimular o vínculo mãe e bebê. A puérpera deve ser estimulada a amamentação em livre demanda e exclusiva, além de instruída e acolhida quando necessário. Maravilhoso, não é? Mas na prática não é tão simples.

Leia também: Como saber qual a melhor via de parto para a paciente?

Para a paciente ter autonomia, primeiro ela precisa ter acesso a informação. Mas só isso não basta, o apoio do acompanhante, parentes, amigos é importante para que a paciente assuma essa autonomia. No geral, vemos pacientes informadas, mas que ainda querem o médico paternalista, para que toda responsabilidade fique com ele e não seja dividida entre os dois. A definição dessa linha tênue, entre a autonomia da paciente e a do médico, ainda precisa ser elucidada para que possamos exercer nossa função com segurança, afinal, normalmente, são duas vidas saudáveis em nossas mãos.

Em relação ao tratamento da gestante com respeito, empatia e baseado em evidências científicas não vou me demorar, pois acredito ser o básico para qualquer profissão. A relação médico-paciente sempre deve ser embasada nesses três pilares, é o único modo de prestar assistência médica de maneira ética.

De acordo com Sens¹, todos os médicos que participaram de sua pesquisa referiram já terem sofrido violência exercendo a obstetrícia, tanto por pacientes, quanto por acompanhantes e pela instituição. Esta violência também prejudica a assistência médica ao tirar a autonomia do mesmo.

Um longo caminho…

O problema da violência obstétrica no Brasil é cultural. Não adianta focar apenas em instruir as gestantes e não mudar a maneira de ensinar nas universidades e nas residências médicas. Não tem sentido lutarmos por um parto humanizado se não temos equipe multidisciplinar especializada para trabalhar. Não tem como oferecer autonomia para uma paciente que ainda não consegue dividir responsabilidade. É praticamente impossível prestar assistência adequada, e a paciente ter uma experiência positiva de parto, com a estrutura da maioria das maternidades brasileiras, onde às vezes ficam mais de quatro pacientes em trabalho de parto no mesmo quarto.

Veja mais: Implicações do termo “Violência Obstétrica” na perícia médica

Acredito que podemos mudar esse cenário, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Estamos passando pela “adolescência” da assistência obstétrica, deixando claro que aqui não incluo apenas o obstetra, e sim todos os responsáveis pelo o parto, incluindo a gestante. Cada um reivindica o que precisa e sente necessidade, sem estar disposto a ceder em nada, sem olhar o todo, e principalmente, tirando o foco do mais importante durante a gestação: o bebê. Todos queremos a mesma coisa: mamãe e bebê saudáveis!

Autora:

Referências bibliográficas:

  1. Sens, Maristela Muller e Stamm, Ana Maria Nunes de Faria. Percepção dos médicos sobre a violência obstétrica na sutil dimensão da relação humana e médico-paciente. Interface – Comunicação, Saúde, Educação [online]. v. 23 [Acessado 14 Dezembro 2021] , e180487. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/Interface.180487>. ISSN 1807-5762. https://doi.org/10.1590/Interface.180487.
  2. Recomendações Febrasgo para temas controversos. Violência Obstétrica. https://www.febrasgo.org.br/es/covid19/item/694-recomendacoes-febrasgo-para-temas-controversos
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde. Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde. – Brasília : Ministério da Saúde, 2017.
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