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Você já ouviu falar da “Asma dos Padeiros”?

A chamada “asma dos padeiros” é o tipo de asma ocupacional mais frequente na atualidade. Lembrando que asma ocupacional é o distúrbio respiratório diretamente relacionado à inalação de fumaças, gases, vapores ou poeiras no ambiente de trabalho, sem história anterior da doença. Ainda existe a chamada “asma agravada pelo trabalho”, que acomete indivíduos com asma preexistente ou concomitante, que sofrem exacerbação dos sintomas devido a exposição ocupacional. Estes 2 tipos são divisões da etiologia chamada “asma relacionada ao trabalho”. Vários estudos demonstram que 9-25% da asma no adulto está relacionada com fatores ocupacionais.

Dependendo da atividade profissional exercida e das substâncias de exposição, a prevalência da asma ocupacional pode ter níveis altos de acometimento entre os trabalhadores expostos, chegando a cerca de 50%. Temos pelo menos 300 tipos de agentes envolvidos como aminas, isocianatos, enzimas biológicas, metais, antígenos animais e vegetais, etc. Estes agentes podem ser classificados em 2 grupos de acordo com o seu peso molecular. Agentes de alto peso molecular estão principalmente envolvidos em mecanismos mediado por IgE (imunológica – asma alérgica ocupacional), enquanto os de baixo peso tem mediação por mecanismos ainda desconhecidos (não – imunológica – asma induzida por irritantes).

O pó de farinha é uma substância perigosa pois é um sensibilizador respiratório conhecido por causar rinite alérgica e asma ocupacional. Todos os envolvidos no processo de produção e cozimento dos pães estão sob risco. Padarias industriais oferecem o mesmo risco de exposição. Moedores de grãos, fábricas de massas, pizzarias, confeitarias, cozinhas de restaurantes e fábricas de malte também ocasionam uma significante exposição ao pó de farinha.  Ele é definido como partículas finamente moídas de cereais ou legumes junto com outros contaminantes, que são liberados durante os processos de moagem e subsequente manuseio e utilização da farinha. Os principais alérgenos envolvidos são a farinha de trigo e derivados, aditivos e microrganismos.

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O desenvolvimento da asma dos padeiros ainda não foi totalmente esclarecido. Alguns estudos levantaram a hipótese da doença ter relação com atopia, porém esta foi encontrada em apenas 1/5 dos padeiros. Uma sensibilização sintomática para a farinha e outros ingredientes aparece relativamente rápido, no primeiro ano de exposição, enquanto os períodos de latência média para surgimento de tosse e dispneia são 4,3 e 17,6 anos, respectivamente. O mecanismo primário é a reação de hipersensibilidade mediada por IgE, geralmente desenvolvida logo após a exposição ao antígeno, o que pode ser evidenciado por testes cutâneos positivos ou testes de radioimuniensaio séricos. As provas de função respiratória também se encontram alteradas com redução dos principais parâmetros em 13 à 36%. Outros sintomas observados são a conjuntivite e a rinite, sendo esta muitas vezes um sintoma que surge antes da manifestação da asma.

Os indivíduos que continuam se expondo aos alérgenos, mesmo depois da identificação da asma dos padeiros, tem evolução dos sintomas que se tornam mais severos e frequentes, inclusive fora do local de trabalho. Além disso, pode ter crises desencadeadas por outros tipos de alérgenos ambientais como fumaça de cigarro, perfumes, tintas, etc. Pelo menos 60% dos trabalhadores sensibilizados irão continuar a ter sintomas de asma moderados, mesmo após afastamento do trabalho. A asma dos padeiros é a principal causa médica que leva à troca de profissão neste setor profissional.

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No Brasil ainda não existe uma legislação específica para quantificar o limite de tolerância à exposição ao pó de farinha e outros elementos afins. Na verdade, as decisões mais recentes do TST não dão direito aos padeiros nem ao recebimento de adicional de insalubridade, seja por exposição ao calor, seja por inalação de poeiras. A verdade é que ainda não damos o devido enfoque a esta patologia ocupacional que cresce progressivamente em todo mundo, inclusive em países onde existe uma regulamentação determinando uso de EPIs e de controle ambiental adequados. Certamente, temos um ínfimo número de casos identificados que de longe, não caracteriza o grande volume de pacientes que tem sua saúde deteriorada e queda acentuada em sua qualidade de vida.

Nosso papel como médicos é essencial para a mudança da consciência da sociedade e de suas leis. As doenças ocupacionais devem ser conhecidas e, quando identificadas, tem que ser notificadas com a emissão de CAT. Na próxima vez que um paciente entrar em seu consultório, não esqueça de perguntar qual é a sua ocupação. Algumas vezes é através dessa informação que chegaremos a um diagnóstico.

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Referências:

  • Baatjies R, Meijster T, Lopata A, Sander I, et al. Exposure to Flour Dust in South African Supermarket Bakeries: Modeling of Baseline Measurements of na Intervention Study. Am Occup Hyg 2010; 54:309-18.
  • Fahim AE, El-Prince M. Pulmonary Function Impairment and Airway Allergy Among Workers in Traditional Bakeries. Int J Occup Med Environ Health 2013; 26:214-19.
  • Baur X, Bakehe P. Allergens Causing Occupational Asthma: An Evidence-Based Evolution of the Literature. Int Arch Occup Environ Health 2014; 87:339-363.
  • NR, Norma Regulamentadora Ministério do Trabalho e Emprego. NR-9 – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais. 2009.
  • NR, Norma Regulamentadora Ministério do Trabalho e Emprego. NR-15 – Atividades e Operações Insalubres. 2009.

 

Um comentário

  1. Bom dia,

    Quando eu tenho contato com a textura da farinha de trigo, giz de quadro, farinha de polvilho doce, entre outros que apresentam texturas parecidas; Me falta ar…
    Sabem me explicar o que pode ser? Pois não tenho alergia a nenhum destes itens, só falta o ar quando encosto na minha pele.
    Será que é fobia?

    Abraços!

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