Atividade de doença na artrite reumatoide associada ao risco de tromboembolismo venoso?

Tempo de leitura: 2 min.

Diferentes estudos demonstraram que pacientes com artrite reumatoide (AR) possuem um risco aumentado de tromboembolismo venoso (TEV), quando comparados com a população em geral. Além disso, devido à possível associação entre o aumento no risco de eventos tromboembólicos e o uso de inibidores da JAK, notamos um crescente interesse com relação ao risco de TEV em pacientes com AR.

No entanto, o impacto entre atividade de doença e esse risco não está estabelecido. Para responder a essa questão, Molander et al. desenvolveram um estudo cujo objetivo principal é avaliar a incidência de tromboembolismo venoso em pacientes com artrite reumatoide, comparada com aquela em pacientes em AR, e investigar o impacto de variáveis clínicas de AR nessa incidência.

Leia também: Definição da EULAR sobre artrite reumatoide de difícil tratamento

Metodologia

Trata-se de um estudo de coorte retrospectiva baseado no registro sueco de reumatologia. Os critérios de inclusão foram: ≥ 18 anos, com diagnóstico de AR feito por reumatologista e, pelo menos, uma consulta entre janeiro de 2006 e dezembro de 2017. O DAS28-VHS foi calculado para cada visita e classificado de acordo com as seguintes categorias: remissão (0-2,6), baixa (2,7-3,2), intermediária (3,3-5,0) e alta (> 5). Para cada paciente com AR, foram selecionados 5 pacientes controle (sem AR), de maneira aleatória e pareado para sexo, idade e área de residência.

Resultados

Foram avaliados 46.316 pacientes, que contribuíram com 322.601 consultas no total. A distribuição de tratamento para AR e características socioeconômicas foi semelhante entre os diversos estratos de atividade de doença, exceto por um discreto aumento no número de comorbidades em pacientes com maior atividade de doença.

Os pesquisadores identificaram que 2.241 consultas em 1.360 pacientes com AR foram seguidas de TEV dentro de 1 ano (1.408 TVP e 833 TEP). A taxa de incidência cumulativa em 1 ano foi de 0,71% no grupo AR vs. 0,36% no grupo controle, o que nos leva a um risco relativo de 1,88 (IC95% 1,65-2,15). As taxas de TEV foram maiores em homens e aumentaram com a idade.

Na população de pacientes com AR, os autores encontraram uma associação consistente entre a atividade de doenças na AR e a ocorrência de TEV: 0,52% em pacientes em remissão, 0,63% em atividade leve, 0,80% em atividade moderada e 1,08% em alta atividade. O risco relativo de TEV em pacientes com alta atividade vs. remissão foi de 2,03 (IC95% 1,73-2,38).

Após a análise de sensibilidade, na qual foi modificada a definição de TEV, janela de tempo, além de modificação de outras variáveis, os resultados apresentados foram similares.

Comentários

Esse estudo é importante porque demonstra uma associação consistente entre a atividade de doença e a ocorrência de TEV em pacientes com AR. Além de haver temporalidade e plausibilidade, a presença de um gradiente biológico (mais atividade gerando maior taxa de TEV incidente) reforça a associação causal existente entre a variável independente (atividade da AR) e a dependente (ocorrência de TEV).

Saiba mais: ACR 2020: destaques sobre artrite reumatoide

As limitações encontradas são inerentes ao desenho retrospectivo, podendo haver vieses de informação e seleção, principalmente. Apesar disso, o registro utilizado engloba 90% de todos os pacientes com AR da Suécia, o que favorece a validação externa dos dados.

Como conclusão, esse estudo demonstrou uma forte associação entre atividade de doença da AR e aumento no risco de TEV.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Molander V, Bower H, Frisell T, et al. Risk of venous thromboembolism in rheumatoid arthritis, and its association with disease activity: a nationwide cohort study from Sweden. Ann Rheum Dis. 2021;80:169-75. doi: 1136/annrheumdis-2020-218419
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Publicado por
Gustavo Balbi

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