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Atributos da Atenção Primária: você sabe o que é competência cultural?

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Entre os atributos da Atenção Primária à Saúde (APS) ditos derivados, encontra-se a competência cultural. Assim como o foco na família e a orientação comunitária – sobre os quais já discutimos aqui – ela também deve ser um fundamento da prática dos profissionais que atuam na APS. Ou seja, para além de contribuir para um sistema de saúde eficiente e integral, a competência cultural deve estar presente na abordagem do médico de família diante de seus pacientes.

Falaremos sobre essa importante característica neste texto, que finaliza a série sobre os atributos da APS no Portal PEBMED.

médicos de família atendendo criança de acordo com competência cultural

Competência cultural

Competência cultural significa reconhecer as características culturais dos grupos sociais, bem como suas diferentes necessidades e concepções do processo saúde-adoecimento. Essas diferenças se manifestam entre os diversos grupos de pessoas que compõem as comunidades e seu reconhecimento é essencial para um melhor cuidado em saúde. Um médico competente culturalmente é capaz de ser mais preciso em seus diagnósticos, de garantir maior adesão e de gerar mais satisfação em seus pacientes.

Reconhecer as características culturais de uma determinada população influi, portanto, na probabilidade de sucesso nas ações de cuidado em saúde, envolvendo, inclusive, a identificação e entendimento dos aspectos étnicos e raciais dos pacientes. O contexto socioeconômico de uma comunidade também traz informações relevantes nesse sentido. O médico que atuar exatamente da mesma maneira diante de uma população indígena e de uma população de trabalhadores do campo, certamente estará deixando de lado uma série de variáveis que influenciarão na saúde de seus pacientes.

Nesse sentido, é preciso que exista a capacidade do médico de entender e de se fazer entender por seus pacientes. A linguagem da população à qual ele atende precisa ser claramente compreendida, dentro de suas nuances locais, gírias e expressões populares.

Para isso, além das habilidades básicas de comunicação clínica, o profissional que atua na APS deve se esforçar para se inserir na cultura local, desenvolvendo um conhecimento cada vez mais amplo sobre a comunidade. É igualmente importante que o médico se comunique em linguagem compreensível pela população, evitando termos excessivamente técnicos e adaptando sua fala à realidade cultural de cada paciente.

A cultura de uma determinada região também pode definir os valores e as crenças de sua população. A conduta do médico na APS precisa levá-los em consideração, uma vez que pessoas diferentes podem enxergar a mesma situação de maneiras diferentes. Uma gestação aos 17 anos pode ser considerada precoce e gerar uma crise familiar em determinada família, mas ser valorizada e simbolizar algum tipo de status social em outra. O consumo de bebida alcoólica pode fazer parte da rotina de uma população e ser proibido em outras. A abordagem de questões sexuais pode ser tabu ou natural dependendo do paciente.

Leia também: Para além da consulta: quais são as atribuições do médico na Estratégia Saúde da Família?

As características culturais influenciam, da mesma maneira, nas representações de saúde e adoecimento que cada pessoa tem. Essas representações dizem ao médico sobre a experiência do paciente sobre seu sofrimento e contribuem para atingir objetivos terapêuticos verdadeiramente centrados na pessoa.

Para pacientes atletas, um afastamento das atividades físicas por alguns dias pode representar mais sofrimento do que uma doença propriamente dita. Homens comumente deixam o cuidado em saúde de lado correndo o risco de adoecerem gravemente; mas o aparecimento de uma impotência sexual pode causar impacto tão grande em sua percepção de saúde que finalmente o motiva a procurar um médico.

Método Clínico Centrado na Pessoa

Um dos passos do Método Clínico Centrado na Pessoa dialoga claramente com esses aspectos: a construção de um plano terapêutico conjunto com o paciente. O médico irá adaptar a sua conduta e pactuar com o paciente a proposta terapêutica levando em consideração seus valores e crenças. A competência cultural permite ao médico identificar aquilo que, de fato, traz sofrimento à pessoa, priorizando esforços nesse sentido.

Contudo, é essencial reconhecer que, da mesma maneira que o paciente está envolto em suas características culturais, o médico também o está. É preciso reconhecer que os seus próprios valores podem influenciar na sua percepção e interação com o paciente, deixando de lado juízos de valor, despindo-se de preconceitos e direcionado sua prática para o bem-estar do paciente.

Ter competência cultural significa reconhecer a influência da cultura, no outro e em si, e manejar essas diferenças de modo a permitir um cuidado em saúde efetivo e centrado na pessoa.

Confira a série completa:

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Starfield B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: UNESCO; 2002.
  • Duncan, B .B. Schmidt, M. I.; Giuliani, E. R. J. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. Cap. 4: Organização de Serviços de Atenção Primária à Saúde. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • Gusso G, Lopes JMC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade – 2a edição. Cap. 4: Atenção primária à saúde. Editora Artmed, 2019.

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