Oncologia

Nódulo pancreático: fazer ou não ultrassom endoscópico antes da cirurgia?

Tempo de leitura: 3 min.

Os nódulos pancreáticos são temidos devido a alta taxa de letalidade que o câncer pancreático possui, além da dificuldade anatômica que o órgão possui para permitir uma biópsia efetiva. 

Ao longo de muitos anos, toda a propedêutica pancreática se baseava em exames de imagem ou até mesmo da CPER que poderiam sugerir uma doença neoplásica mesmo sem a obtenção da amostra de material. Esta conduta continua sendo adotada, apesar dos avanços tecnológicos, e o desenvolvimento da ultrassonografia endoscópica (EUS) mostrou que é possível a obtenção de amostras pancreáticas de forma segura.

Apesar disto ainda não se estudou se existe um real benefício do uso de EUS, nos pacientes com diagnóstico de câncer pancreático.

Saiba mais: Como triar o câncer de pâncreas em pacientes com alto risco?

Métodos

Estudo retrospectivo multicêntrico, que analisou os dados de pacientes submetidos a pancreatectomias por câncer pancreático de janeiro de 2005 a junho de 2017, foram posteriormente divididos em dois grupos: os que foram submetidos a EUS + PAAF (punção por agulha fina); e aqueles sem punção prévia a cirurgia.

Resultados

Um total de 293 pacientes foram enquadrados no estudo, 160 realizaram PAAF e 133 não realizaram PAAF. Dos pacientes que realizaram a punção 30, também foram submetidos a CPER, e daqueles que não foram puncionados, 58 também realizaram CPER. 

As biópsias foram realizadas pelo estômago e/ou duodeno. Durante as CPER também foi possível a obtenção de amostras para análise citológica, pelo suco pancreático ou biliar, escovado pancreático ou biliar, biópsia guiada por fluoroscopia do pâncreas ou dos canais biliares.  

A análise estatística da sensibilidade de cada método revelou: citologia suco pancreático 25%; escovado pancreático 34,8%; biopsia ducto pancreático 44,4%; citologia da bile 46,7%; escovado de ductos biliares 18,2%; biopsias de ducto pancreático 41,7%. O EUS apresentou sensibilidade muito superior a CPER, com sensibilidade de 91,9 % para citologia e 83,1% para histologia com uma sensibilidade média de 45,5%, enquanto a CPER com com média de sensibilidade de 45%. 

Eventos adversos ocorreram em 1,3% dos pacientes que realizaram EUS-PAAF, e em 10,2% daqueles que realizaram CPER e esta diferença apresentou um p=0,001. Os desfechos operatórios precoces e tardios foram semelhantes em ambos grupos, não apresentado diferença com algum significado estatístico.

Discussão

Os achados deste estudo demonstraram que a EUS-PAAF é bastante superior e com menos comorbidades associadas que a CPER na obtenção de uma amostra para análise oncológica. Além disso, os achados também demonstraram uma não inferioridade das punções com o potencial risco de disseminação de células neoplásicas pelo trajeto da agulha, visto que os desfechos oncológicos são semelhantes entre os grupos. 

Alguns trabalhos recentes têm demonstrado o benefício da quimioterapia neoadjuvante no manejo dos tumores pancreáticos, e portanto a obtenção de uma amostra pode ser crucial para uma condução ideal do caso. 

Mesmo sem ter sido demonstrado nos achados deste estudo a disseminação de células pelo trajeto da agulha já foi demonstrado por alguns estudos, assim a disseminação deve ser levado em consideração ao se indicar uma biópsia. 

Em conclusão, o uso de EUS-PAAF é seguro e pode ser utilizado na obtenção de amostras. No entanto, o risco benefício, inclusive de disseminação de células, deve ser pesado, visto que não há influência no desfecho clínico do paciente.

Para levar para casa

A ultrassonografia endoscópica com punção deve ser utilizada somente em casos onde não há uma clara indicação cirúrgica, pois o resultado não iria alterar a conduta a ser adotada. Somado a isto, adiciona-se o risco de disseminação neoplásica que apesar de baixo ainda existe.

Referências bibliográficas:

  • Maruta, A., Iwashita, T., Yoshida, K. et al. Evaluation of preoperative diagnostic methods for resectable pancreatic cancer: a diagnostic capability and impact on the prognosis of endoscopic ultrasound-guided fine needle aspiration. BMC Gastroenterol 21, 382 (2021). https://doi.org/10.1186/s12876-021-01955-7
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Publicado por
Felipe Victer

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