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Candida auris: fungo multirresistente surge como nova ameaça

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Uma espécie nova Candida auris, isolada inicialmente no canal auditivo de um paciente no Japão em 2009, têm sido descrita nos cinco continentes. A emergência desse patógeno têm chamado atenção da comunidade científica e da área da saúde por causa da multirresistência às três principais classes de antifúngicos disponíveis atualmente (azóis, anfotericina B e equinocandinas) e seu papel como agente de infecção associada aos cuidados com a saúde, especialmente em ambiente hospitalar.

Tal atenção à Candida auris iniciou-se em junho de 2016, a partir de um alerta mundial publicado pelo Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), em Atlanta, nos EUA. Já em maio de 2017, contabilizavam-se 77 casos de infecção hospitalar (Mediana de idade = 70 anos, variação de 21 a 96, 55 % homens) por esse mesmo patógeno em sete estados americanos, foram identificados 45 pacientes  adicionais (contactantes próximos) dos quais foram isolados C. auris de um ou mais espécime clínico. A maior parte dos casos apresentava comorbidades significativas com internação prolongada.

E quais informações e os principais pontos que precisamos ter atenção sobre Candida auris e como prevenir futuros casos de infecção?

  • C. auris pode causar infecção em corrente sanguínea e outras infecções invasivas, sendo isolado de urina, escarro e outros espécimes clínicos, particularmente em pacientes com múltiplas comorbidades;
  • O patógeno apresenta multirresistência aos azóis, anfotericina B e equinocandinas e já foi descrito em infecções hospitalares em mais de 20 países;
  • C. auris pode colonizar os pacientes por meses (diversos sítios) e permanecer viável por longos períodos no ambiente, é também resistente a diversos desinfetantes, incluindo aqueles baseados em quaternário de amônio:
  • Esse microrganismo é de difícil identificação laboratorial por métodos convencionais, e a sua não detecção precoce pode implicar em maior disseminação no cenário hospitalar do caso-índice. Não há métodos fenotípicos que permitam distinguir C. auris de outras espécies do gênero;
  • O método atual que permite a identificação de C. auris consiste em matrix-assisted laser desorption/ionization time-of-flight mass spectrometry (MALDI-TOF MS), especialmente Bruker Biotyper MALDI-TOF e bioMérieux VITEK MS MALDI-TOF, cujo banco de dados deve conter informações para esse microrganismo;
  • Outros métodos moleculares que permitem a identificação de C. auris incluem o sequenciamento da região D1-D2 do DNA ribossômico (rDNA) ou da região interna espaçadora transcrita (ITS) do rDNA;
  • Outro sistema comercial que permite a identificação de C. auris é o VITEK 2 YST (software versão 8.01). Os métodos API 20C, BD Phoenix MicroScan e RapID Yeast Plus não permitem a identificação direta, necessitando de complementação ;
  • Os testes de susceptibilidade a antifúngicos devem ser realizados com os microrganismos isolados de sítios estéreis, ou enviados a laboratórios capacitados à realização de tais testes de forma a rastrear possíveis alternativas terapêuticas;
  • Cerca de 30 % das cepas isoladas de C. auris apresentam resistência a anfotericina B, e não-susceptibilidade adquirida a azóis e equinocandinas em taxas variável, com possibilidade de conversão, mesmo durante o tratamento;
  • O tratamento disponível e recomendado atualmente para tratamento de infecções por C. auris consiste em:
Equinocandina Dosagem para adultos Dosagem pediátrica
Anidulafungina Dose inicial de 200 mg EV, seguida de100 mg EV de 24/24 horas Não aprovada para uso em crianças
Caspofungina Dose inicial de 70 mg EV, seguida de50 mg EV de 24/24 horas Dose inicial de 70 mg/m2/dia EV, seguida de 50 mg/m2/dia EV (baseada na superfície de área corporal)
Micafungina 100 mg EV de 24/24 horas 2 mg/kg/dia EV com opção de aumento para 4 mg/kg/dia EV em crianças > 40kg

Deve-se alterar o tratamento para anfotericina B lipossomal (5 mg/kg/dia) se o paciente não responder ao tratamento com equinocandina ou persistir com fungemia por > 5 dias. Para neonatos < 2 meses, a escolha inicial de tratamento consiste em anfotericina B deoxicolato 1 mg/kg/dia, se não responsivo, trocar para anfotericina B 5mg/kg/dia.

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Em circunstâncias excepcionais, quando o sistema nervoso central não estiver acometido, pode-se considerar o uso de equinocandinas: Caspofungina 25 mg/m2/dia EV (baseada na superfície de área corporal) ou Micafungina 10 mg/kg/dia EV.

  • A detecção de casos de infecção por C. auris devem ser reportados às autoridades de vigilância em saúde local para permitir melhor controle de infecção hospitalar;
  • Os saneantes com atividade esporocida são reconhecidos como ativos para C. auris e devem ser utilizados para limpeza do ambiente hospitalar, estes incluem compostos a base de cloro, peróxido de hidrogênio e outros.

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Referências:

  • Cadnum JL, Shaikh AA, Piedrahita CT, Sankar T, Jencson AL, Larkin EL, Ghannoum MA, Donskey CJ. Effectiveness of Disinfectants Against Candida auris and Other Candida Species. Infect Control Hosp Epidemiol. 2017 Oct;38(10):1240-1243.
  • Jeffery-Smith A, Taori SK, Schelenz S, Jeffery K, Johnson EM, Borman A; Candida auris Incident Management Team, Manuel R, Brown CS. Candida auris: a Review of the Literature. Clin. Microbiol. Rev. 2017 Nov 15;31(1). pii: e00029-17.
  • Navalkele BD, Revankar S, Chandrasekar P. Candida auris: a worrisome, globally emerging pathogen. Expert Rev Anti Infect Ther. 2017 Sep;15(9):819-827.
  • Nett JE .Candida auris: An emerging pathogen “incognito”? PLoS Pathog. 2019 Apr 8;15(4):e1007638.
  • Sears D, Schwartz BS. Candida auris: An emerging multidrug-resistant pathogen. Int J Infect Dis. 2017 Oct;63:95-98.
  • https://www.cdc.gov/fungal/candida-auris.
  • https://www.epa.gov/sites/production/files/2018-01/documents/2018.10.01.listk_.pdf

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