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Casos clínicos: eu, médico, sobrevivi a Covid-19

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As síndromes associadas ao novo coronavírus SARS-CoV-2, especialmente a doença respiratória Covid-19, tem acometido significativamente inúmeros profissionais de saúde. E conosco não foi diferente. De médicos, viramos pacientes, sem possibilidade de escolha, com seus inúmeros conflitos no processo do “caos” chamado Covid-19.

Dois médicos, casos reais distintos, sobrevivemos e relatamos aqui o que nos aconteceu e nossas diversas impressões.

Caso 1: Covid-19 leve

R.S.D., 44 anos, microbiologista e médico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), médico do setor de urgência de hospitais na região do Porto, Portugal.

Em Portugal, a pandemia de Covid-19 começou a tomar proporções grandes no início de março. O desconhecimento, dúvidas quanto a gravidade e o ajuste gradual dos equipamentos de proteção individual ou orientações só contribuíam para muitos questionamentos e medo. Medo ao ler os relatos de profissionais doentes em outros países próximos, medo dos números crescentes, medo especialmente de ser instrumento de cura mas também de disseminação da doença para seus afetos, medo do conhecimento (preferiria a ignorância nesse momento) e etc.

A primeira reação: o incômodo em ir trabalhar e voltar “sujo”, “contaminado”, “suspeito”, mas todos estávamos no mesmo barco, nosso juramento não permitia abandonar.

Até que em 06 de abril de 2020 chegou meu primeiro e único sintoma atípico inicial – sudorese noturna importante e mais nada nos dias seguintes. Indiquei ao hospital que apesar do quadro atípico, eu preferiria realizar a RT-PCR para o novo coronavírus, o qual veio positivo. Sim, eu tinha swab positivo para coronavírus e estava infectado e doente, provavelmente no 4º dia da doença (D4), e iniciava isolamento estrito.

Mas contaminei alguém? Agora eu precisava cuidar de mim e do outro, se algo acontecesse de ruim a culpa era minha – médico monstro? E aguardava, então, a temida (talvez pavorosa e muitas vezes letal) tempestade de citocinas que veio no meu sétimo dia (D7) da doença, de forma também suave com calafrios importantes, algum peso torácico e leve sudorese matinal nos dias seguintes. Senti o pulmão igual a uma esponja encharcada, pesada, reativa a qualquer riso, choro ou exercício físico, mas segui sem tosse, sem febre, sem cansaço, sem secreção. Não tomei medicamentos, e assim foi embora suavemente minha doença, com a confirmação de sorologia positiva no D19.

Mas confesso que alguns aspectos, especialmente, me incomodaram bastante: (i) A (des)crença tipo Dunning-Kruger de muitos na caminhada da doença para o Brasil; e (ii) a falta de sensibilidade de diferentes amigos. Ainda no início da doença e até mesmo depois, perdi a conta das mensagens recebidas com notícias desastrosas sobre pioras, internações, entubações, mortes … mesmo todos sabendo que eu ainda estava no curso da doença. O que eu mais queria era ver ou rir com “Tô de Graça” ou “Lady Night” em paz, ver filmes da Disney, Harry Potter ou Teletubbies, e o que eu menos precisava era de notícias que aumentassem minhas preocupações.

Entendo que as expectativas ou medos de quem assiste são maiores do que as do doente, mas, gente, não alimentem meus medos. E mesmo após a sorologia com IgG positiva, vieram os alimentados pela “infodemia”, com o comentário: “Espero que garanta a imunidade, pois há possíveis casos de reinfecção”. Por favor, deixem eu ser um paciente comum, não um super-herói, deixem eu acreditar que, por longos meses, ou anos ou o que for, eu não precisarei mais me preocupar com esse caos mental! Sim sobrevivi, e voltarei para ajudar os que precisam. Obrigado a todos que carinhosamente me conduziram!

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Caso 2: Covid-19 grave

T.R.L., 37 anos, médico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com especialização em Nefrologia pela PUC-Rio e Terapia Intensiva pela Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, atuando ativamente em ambas as especialidades e na coordenação de serviço de diálise, na cidade do Rio de Janeiro, RJ.

No Brasil, os primeiros casos suspeitos envolvendo o SARS-CoV-2 começaram a aumentar no final de fevereiro. Era dia 6 de abril, eu sentado ao computador, atualizando protocolos assistenciais, já sobrecarregado (afinal, que médico, em meio a essa pandemia, não está?) há algumas semanas por estar cobrindo colegas que estavam acometidos pela Covid-19, me dividindo entre turnos de CTI e hemodiálise, quando minha esposa apontou minha tosse seca – pronto, ali começara um dos momentos mas delicados da minha vida.

Inicialmente minha reação foi de negação, talvez só preocupações. Contudo, rapidamente progredi para um cansaço desproporcional e uma mialgia tamanha, e não seria possível continuar mais na batalha. No D7 começou a maldita dispneia – agora já com uma certa insegurança em relação ao desfecho, especialmente porque sou asmático, e esse tipo de padrão respiratório parecia ser diferente de tudo que já havia vivenciado.

No dia seguinte (D8), já acordei com muito desconforto respiratório, a sensação de que o ar respirado não era o suficiente me deixava cada vez mais angustiado – estava eupneico mas hipoxêmico, embora com a saturação ainda em níveis aceitáveis. Busquei a emergência pela primeira vez (já estava em uso de hidroxicloroquina, azitromicina, zinco e vitamina D).

No pronto atendimento, realizei exames de sangue que vieram aparentemente normais, exceto pela gasometria que já apontava hipoxemia considerável – nesse momento, só conseguia pensar na expressão: “intubação precoce”, praticamente um mantra. Todavia, para minha surpresa, fui informado de que receberia alta, pois não apresentava sinais importantes de gravidade, além de ser médico, ter uma esposa médica, e poderia avaliar qualquer sinal de gravidade.

No D9 a dispneia piorou – nesse ponto já estava dormindo à base de benzodiazepínicos, a ansiedade e a angústia só aumentavam – como eu gostaria de ser leigo nessa ocasião. Retornei à emergência, fui encaminhado para leito de isolamento respiratório, a tomografia computadorizada do tórax que revelou infiltrado típico, em vidro fosco (entre 25 e 50% da área pulmonar). Seguia com dispneia aos mínimos esforços, só em me mexer no leito dessaturava.

Fui internado e iniciaram suporte mais agressivo em relação as possíveis complicações (antibioticoterapia venosa, anti coagulação plena, monitorização em unidade fechada, dosagem de IL6, pensando numa possível utilização de tocilizumab, e hidroxicloroquina). E chegou o grande medo de ser intubado, o medo de morrer e deixar minha esposa do lado de fora, sem ter podido, sequer, ter me despedido dela; o medo de deixar de existir, medo do que seria dos meus pais (minha mãe com DPOC grave), do meu irmão, na verdade, medo do desconhecido, do incontrolável – sempre estive do outro lado, nunca imaginei que tão cedo estaria numa situação de risco ventilatório, podendo ser intubado, e sabe-se lá Deus (sim, acabei me aproximando Dele também) se eu sobreviveria a uma doença tão traiçoeira. No quarto de isolamento respiratório do CTI, o tempo pareceu parar, junto com a angústia e a incerteza, crescia também a solidão.

No D10 da doença, veio a dispneia incontrolável, mesmo em suplementação de O2 nasal, uma taquicardia, uma sensação horrorosa – nesse momento eu realmente achei que não venceria, eu seguia piorando. Foi quando a equipe optou por me sedar – ali eu já não sabia mais o que era doença, angústia ou ansiedade, tinha uma dispneia que nunca tinha vivenciado, que qualquer coisa que fizessem pra aliviar aquela agonia seria bem vinda, até mesmo uma eventual intubação. Após algumas horas de descanso, a agonia passou.

Perda de apetite aliada a enjoo e diarreia persistente. Mesmo com oxigênio, caminhar até o sanitário não era uma tarefa fácil, e usar a fralda me parecia fora de cogitação – o que se mostrou uma grande besteira, afinal, eu estava ali na condição de paciente, e a maioria dos pacientes no CTI faz suas necessidades na fralda.

Um dos médicos da equipe do CTI deixou uma frase que me guiou ate o fim da internação: “aqui ninguém tem o direito de morrer, você não tem o direito de morrer, tire essa loucura da sua cabeça”. Essa expressão acabou virando um mantra pra mim.

No terceiro dia na CTI, finalmente alguns marcadores de gravidade caíram significativamente, meu exame de imagem estava evolutivamente melhor, e eu finalmente senti alguma melhora clínica (já não apresentava mais aquela agonia respiratória, somente a dispneia aos mínimos esforços). Aos poucos, fui reaprendendo a respirar novamente. Também tive que reaprender a andar, afinal, após perder 9 kg em sete dias, obviamente havia desenvolvido algum grau de sarcopenia, além da miosite que parece ser causada pela própria doença.

Alguns dias depois recebi alta para casa, ainda com dispneia aos pequenos esforços, ainda necessitando fazer exercícios de fisioterapia respiratória e motora, mas já em condições de dar continuidade a fase de reabilitação em domicílio. Finalmente em casa, feliz por ter saído do hospital, recebo a notícia que meu amigo, meu parceiro de trabalho, com o qual divido a condução dos pacientes graves em terapia intensiva todas as semanas, acabara de ser intubado em outro hospital e seria curarizado por conta de dificuldades ventilatórias – foi quando me dei conta de que a guerra mal havia começado, havia vencido apenas uma batalha. E vivenciei diversos colegas adoecendo, alguns foram hospitalizados, e outros infelizmente não conseguiram resistir a esse vírus que surpreendeu a todos.

Essa doença não da trégua, é traiçoeira, quando menos se espera surgem as complicações, e a sensação de impotência diante de todo seu curso nos faz perceber que somos humanos e adoecemos, física e mentalmente, como todos os outros. Não somos heróis e, embora as vezes sejamos incansáveis, envolvidos luta para vencer esse vírus, somos feitos de “carne e ossos” e não estamos livres da dor e do sofrimento causados por essa pandemia.

Deixo aqui meu agradecimento a toda equipe do hospital que me acolheu, sobretudo a minha esposa e amigos que sempre estiveram ao meu lado direta ou indiretamente, e nunca deixaram de me apoiar nessa luta, foram fundamentais.

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