Infectologia

Ceftriaxone ou penicilina para tratamento de neurossífilis?

Tempo de leitura: 3 min.

A neurossífilis é uma das múltiplas formas de infecção por Treponema pallidum, sendo muitas vezes uma condição de difícil diagnóstico. O tratamento padrão-ouro é com penicilina cristalina por 10 a 14 dias. Entretanto, preocupações com posologia, tempo de tratamento, alergia e disponibilidade fazem com que outras opções de antibióticos sejam desejáveis. 

Uma alternativa é o uso de ceftriaxone, uma cefalosporina com atividade contra T. pallidum, penetração em SNC e com administração em dose única diária. Dados sobre a  eficácia desse esquema são limitados, geralmente envolvendo casos de uveíte sifilítica ou em  pessoas com HIV. 

Leia também: Quais as manifestações clínicas dos casos de reinfecção por sífilis?

Um estudo francês publicado no The Lancet procurou comparar a eficácia dos tratamentos de neurossífilis com ceftriaxone e com penicilina cristalina. 

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Materiais e métodos 

Trata-se de um estudo de coorte multicêntrico, conduzido em 8 centros terciários franceses, envolvendo pacientes com neurossífilis, que foi definida como sífilis ocular, sífilis ótica ou manifestações neurológicas com alteração na celularidade liquórica ou testes diagnósticos para sífilis positivos no LCR. Indivíduos com neurossífilis assintomárica, neurossífilis tardia (com manifestações como tabes dorsalis, demência ou paresia generalizada) ou com diagnóstico alternativo foram excluídos. 

Os participantes selecionados deveriam ter recebido um de dois possíveis tratamentos: ceftriaxone 2 g IV 1x/dia ou benzilpenicilina cristalina 3000000-4000000 UI IV 4/4 horas por pelo menos 10 dias. 

Os desfechos avaliados foram resposta clínica em 1 mês, a qual foi classificada em resposta completa (desaparecimento total dos sintomas neurológicos ou oftalmológicos), resposta clínica parcial (melhora clínica importante dos sintomas, mas sem retorno ao estado inicial). Desfechos secundários incluíram a proporção de pacientes com resposta completa 1 mês, resposta sorológica após 6 meses e tempo de internação hospitalar. 

Resultados 

Foram incluídos 208 indivíduos, com uma mediana de idade de 47 anos. A maioria era do sexo masculino (93%) e 49% viviam com HIV. A maioria recebeu penicilina cristalina em relação a ceftriaxone (80% vs. 20%, respectivamente). Mais participantes no grupo da penicilina apresentaram sinais e sintomas de sífilis secundária, uveíte e VDRL positivo no LCR. Ao longo do tratamento, 38 pacientes (23%) inicialmente tratados com penicilina cristalina tiveram o tratamento trocado para ceftriaxone, enquanto, no grupo que iniciou ceftriaxone, não houve troca de antimicrobiano. 

Saiba mais: Sífilis pode ultrapassar casos de HIV em importância para Ministério da Saúde

Resposta clínica foi observada em 98% dos indivíduos que receberam ceftriaxone em comparação com 76% dos que receberam penicilina cristalina (OR = 13,02; IC 95% = 1,73- 97,66; p = 0,017). Para resposta clínica completa, foi observada em 52% no grupo ceftriaxone e em 33% no grupo que recebeu penicilina (OR = 2,26; IC 95% = 1,12-4,41; p = 0,031). 

Não houve diferença na resposta sorológica após 6 meses de tratamento, mas os indivíduos do grupo que recebeu ceftriaxone ficaram hospitalizados por menos tempo do que os que foram tratados com penicilina. Não foram relatados eventos adversos graves em nenhum dos grupos. 

Mensagens práticas

Nesse estudo, ceftriaxone teve eficácia semelhante à penicilina cristalina para o tratamento de neurossífilis e esteve associado a menor tempo de hospitalização. 

Autor(a):

Referências bibliográficas: 

  • Bettuzzi T, et al. Ceftriaxone compared with benzylpenicillin in the treatment of neurosyphilis in France: a retrospective multicentre study. Lancet Infect Dis. 2021. doi: 10.1016/S1473-3099(20)30857-4
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Publicado por
Isabel Cristina Melo Mendes

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