Consumo de pimenta pode reduzir mortalidade cardiovascular?

Tempo de leitura: 3 minutos.

A pimenta é um condimento típico das Américas Central e do Sul, porém está difundida em diversas culturas ao redor do mundo. Diversos estudos mostraram benefícios na ingestão da pimenta em relação a melhora da função cardíaca, perda de peso, combate ao câncer, propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes além de agir de forma favorável na microbiota intestinal.

O metabólito presente na pimenta responsável por esses benefícios é a capsaicina, que, paradoxalmente, quando ingerida em grandes quantidades pode trazer efeitos deletérios.

Estudos abordando a redução da mortalidade/morbidade geral e cardiovascular são escassos, principalmente em locais onde a dieta do mediterrâneo (dieta com efeitos cardioprotetores comprovados) é praticada, como na Itália.

Pimenta e mortalidade cardiovascular

Cientistas italianos decidiram pesquisar os benefícios da ingestão de pimenta na população do país em um longo período e em relação a mortalidade geral e cardiovascular. Foram incluídos no estudo mais de 22 mil pessoas, após excluírem pessoas com distúrbios alimentares, pessoas que deram informações não confiáveis ou que perderam o seguimento.

Diversas variáveis foram analisadas, como a prática de exercícios físicos, o índice de massa corporal, o status de tabagismo, histórico de doenças cardiovasculares, histórico de câncer, além de questões sociais e educacionais.

Leia mais: Novo escore prediz risco de mortalidade cardiovascular na esteato-hepatite

Um questionário dietético foi aplicado, abordando o consumo de pimenta, entre outras questões. O participante poderia informar quão frequentemente ingeria pimenta, sendo as opções: nunca ou quase nunca, ocasionalmente, frequentemente e muito frequentemente. Os pesquisadores também categorizaram a ingestão de pimenta pela frequência, sendo as possibilidades de resposta como nunca ou raramente, até 2 vezes por semanas, de 2 até 4 vezes por semana e mais de 4 vezes por semana. O consumo de outros temperos como alho, salsa ou pimenta negra foram incluídos como sim ou não no questionário.

Diversos biomarcadores de doença cardiovascular como lipídeos séricos, proteína C reativa, troponina, BNP e NT pró-BNP, função renal e lipoproteínas também foram dosados.

A maioria dos pacientes declarou nunca ou quase nunca ingerir pimenta, entretanto a segunda maior parcela de pacientes ingeria pimenta mais de quatro vezes na semana. Os maiores consumidores de pimenta eram homens, mais velhos, mais escolados, com grande incidência de riscos cardiovasculares, mas também com as maiores taxas de prática de atividade física.

Resultados

Durante o seguimento médio de 8,2 anos ocorreram 1236 mortes. A mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares foi menor em indivíduos que consumiam pimenta regularmente (> 4 vezes na semana), em relação aos que nunca comiam [RR 0.77 (95% intervalo de confiança [IC]: 0.66 até 0.90)] O benefício também foi visto nos pacientes que ingeriam pimenta de maneira relativa (2 vezes ou mais por semana) em relação aos que nunca consumiam comiam [RR 0.66 (95% IC: 0.50 até 0.86)].

Mais do autor: Nova droga para a redução da lipoproteína (a) mostra bons resultados em estudos

Além disso, o consumo regular de pimenta também reduziu a incidência de eventos cardiovasculares (infarto e AVC). A associação com a redução da mortalidade mostrou ser mais forte em indivíduos livres de hipertensão. Pimentas mais ardentes, com mais capsaicina mostraram melhores resultados em relação a pimentas mais suaves.

O estudo não foi capaz de mostrar redução de mortalidade por câncer.

Sendo assim, um estudo com uma grande população, adepta da dieta do mediterrâneo foi capaz de mostrar uma redução da mortalidade geral e cardiovascular, de forma independente, em pacientes que ingerem pimenta regularmente. Esse estudo vai em concordância a outros estudos populacionais. A explicação para tal fato pode estar associada aos efeitos benéficos da capsaicina citados anteriormente.

Mensagem prática

Devemos então iniciar a suplementação de capsaicina ou encher nossos pratos com pimenta quente? A história dos suplementos alimentares mostra que é melhor esperarmos pelos estudos randomizados, já que uma meta-análise recente a respeito de estudos randomizados sobre a ingestão de suplementos alimentares mostrou benefício apenas na suplementação de ácido fólico (redução de doença cardiovascular e risco de AVC) e de complexo B (redução de AVC).

Quer receber as principais novidades em Cardiologia? Participe do nosso grupo do Whatsapp!

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Bonaccio M, Di Castelnuovo A, Costanzo S, et al. Chili pepper consumption and mortality in Italian adults. J Am Coll Cardiol 2019;74: 3139–49.
  • Jenkins DJA, Spence JD, Giovannucci EL, et al. Supplemental vitamins and minerals for CVD prevention and treatment. J Am Coll Cardiol 2018;71: 2570–84.
  • Spence JD. Chili Pepper Consumption and Cardiovascular Mortality. J Am Coll Cardiol 2019; 74: 3150 – 2.
Relacionados