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paciente internado em UTI com coronavírus

Coronavírus: é possível ventilar mais de um paciente em um mesmo ventilador?

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Em um cenário de catástrofe, é possível que um hospital precise operar além da sua capacidade de fornecimento de cuidados. Na pandemia do covid-19, uma imensa preocupação é a escassez de ventiladores, visto que muitos casos de insuficiência respiratória podem ocorrer simultaneamente num mesmo hospital.

Nesse caso, o ideal seria transferir os pacientes para outros centros com mais recursos. No entanto, caso isso não seja possível (ou demore muito), uma solução temporária é a adaptação dos ventiladores para acoplar dois ou quatro pacientes, como descreve o artigo de Neyman, G. e Irvin, C.B, publicado na revista Academic Emergency Medicine.

É importante frisar de antemão que esse artifício deve ser considerado somente em última instância, e como medida temporária. Os ventiladores foram feitos para a uso individual, e a segurança desse método não foi devidamente estudada.

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Ventilação mecânica na pandemia de coronavírus

Em 2006 foi publicado o estudo “A Single Ventilator for Multiple Simulated Patients to Meet Disaster Surge” (tradução: simulação de ventilador único para múltiplos pacientes para atingir demanda em cenários de catástrofe). Este foi um estudo experimental que simulou a ventilação mecânica controlada por volume (VCV) ou por pressão (PCV) em quatro pulmões-modelo.

O sistema de fluxo foi adaptado com tubos T para formar quatro circuitos, conforme demonstrado nas figuras a seguir:

Figura 1: Tubo T e adaptador | Fonte: Neyman, G. and Irvin, C.B. (2006), A Single Ventilator for Multiple Simulated Patients to Meet Disaster Surge. Academic Emergency Medicine, 13: 1246-1249. doi:10.1197/j.aem.2006.05.009
Figura 2: Junção de 3 tubos T + adaptadores acoplados ao circuito do ventilador. Cada saída livre (mostrada abaixo pelas setas) deve ser conectada a um paciente diferente | Fonte: Neyman, G. and Irvin, C.B. (2006), A Single Ventilator for Multiple Simulated Patients to Meet Disaster Surge. Academic Emergency Medicine, 13: 1246-1249. doi:10.1197/j.aem.2006.05.009
Figura 3: Circuito completo. O complexo mostrado na figura 2 encontra-se no circuito do fluxo inspiratório (Inflow Splitter) e no circuito do fluxo expiratório (Outflow Splitter). Os pulmões-modelo (Lung Simulators) representam os pacientes. | Fonte: Neyman, G. and Irvin, C.B. (2006), A Single Ventilator for Multiple Simulated Patients to Meet Disaster Surge. Academic Emergency Medicine, 13: 1246-1249. doi:10.1197/j.aem.2006.05.009

Foi realizada inicialmente, a ventilação em PCV. Utilizou-se pressão de pico de 25 cmH2O, PEEP de 0, frequência respiratória de 16 e relação I:E de 1:2 (aleatoriamente). O tempo total de ventilação nesse modo foi de 5 horas e 33 minutos e a média de volume corrente para cada pulmão-modelo foi de 471±22 ml.

Em seguida foi realizada a ventilação em VCV, na qual utilizou-se um volume corrente de 2000 ml (500 ml por paciente), frequência respiratória de 16 e relação I:E de 1:1 (aleatoriamente). O tempo total de ventilação nesse modo foi de 6 horas e 11 minutos, a média de volume corrente para cada pulmão-modelo foi 507±1 ml e pressão de pico 28±2 cmH2O.

Leia também: Coronavírus: guideline do Surviving Sepsis Campaign para manejo de pacientes graves

Conclusões

Nesse modelo experimental, os investigadores mostraram que é possível manter um volume relativamente constante para os quatro pulmões-modelo tanto em VCV quanto em PCV. É importante notar que, para que isso seja possível, a fisiologia pulmonar dos 4 pacientes deve ser semelhante. Por exemplo: se um paciente apresentar broncoespasmo, a pressão das vias aéreas nesse paciente será mais alta que nos outros; logo, o volume corrente será desviado para os outros pacientes, e o paciente com broncoespasmo não ventilará adequadamente. A co-autora desse trabalho recentemente fez um vídeo no YouTube explicando como realizar esse tipo de ventilação:

Para que essa adaptação seja possível, precisamos nos atentar para alguns detalhes:

  • Os pulmões devem ser aproximadamente do mesmo tamanho (ex: evitar acoplar pacientes adultos com pacientes pediátricos);
  • Os pacientes agrupados devem apresentam aproximadamente a mesma resistência nas vias aéreas (ex: evitar acoplar um paciente com broncoespasmo com outros pacientes sem broncoespasmo);
  • Os tubos conectores devem apresentar aproximadamente o mesmo tamanho;
  • Sempre lembrar do risco de contaminação cruzada entre os pacientes.

Por fim, é importante tem em mente que técnica descrita acima deve ser utilizada pelo menor tempo possível, apenas até que se consiga um ventilador para cada paciente.

Veja mais: Coronavírus: como abordar os casos graves?

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Neyman, G. and Irvin, C.B. (2006), A Single Ventilator for Multiple Simulated Patients to Meet Disaster Surge. Academic Emergency Medicine, 13: 1246-1249. doi:10.1197/j.aem.2006.05.009

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