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Coinfecção de tuberculose em pacientes com Covi-19 pode ser um problema grave

De mãos dadas, Covid-19 e a tuberculose

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Um dos tópicos importantes envolvendo a recentemente descrita síndrome respiratória Covid-19, associada ao coronavírus SARS-CoV-2, envolve a coinfecção com outras doenças respiratórias, especialmente a tuberculose (TB). A estimativa é de que aproximadamente 4 milhões de indivíduos morrem anualmente por infecções do trato respiratório inferior, e considera-se que cerca de 1,4 milhões morrem unicamente devido a TB, sendo esta considerada até março de 2020 a doença infecciosa com maior número de mortes diárias em todo mundo, sendo, então, sobreposta pela Covid-19. Mas então, atualmente, qual o cenário quando temos a pandemia de Covid-19 sobrepondo os amplos e significativos números já conhecidos da TB?

De maneira semelhante ao ocorrido durante o surto anterior de Ébola (2014-2015), no qual observamos que a interrupção da continuidade de serviços essenciais, incluindo os programas nacionais para controle do HIV, TB e malária, resultou em maior número de mortes por essas patologias, que sobrepos o número de mortes pelo próprio Ébola. Observou-se a interrupção do acesso de pacientes ao tratamento para TB e HIV pois as instituições de saúde, equipes médicas e laboratórios direcionaram suas energias e recursos para o controle do surto de Ébola. O mesmo tem sido observado com a pandemia da Covid-19, mas em escala ainda maior, global.

Leia também: Covid-19: onde estamos nas terapias medicamentosas?

Consequências da pandemia para tuberculose

Até o final de 2019, apenas três patógenos figuravam como prioridade na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) para pesquisa e desenvolvimento: Mycobacterium tuberculosis e os dois coronavírus previamente descritos — SARS-CoV (2002) e MERS-CoV (2013). Com a emergência da atual pandemia, SARS-CoV-2 foi obrigatoriamente adicionada a essa listagem.

A análise de um modelo de estudo divulgado pelo programa Stop TB Parternship da OMS, considerando os 20 países prioritários que representam 54% dos casos mundiais de TB, indicam que a pandemia pela Covid-19 terá consequências drásticas para os serviços de controle de TB.

As medidas de lockdown, medo da infecção pelo novo coronavírus por parte dos pacientes e prioridades nas políticas públicas e das instituições de saúde para o combate ao SARS-CoV-2 têm resultado em limitações significativas sobre o diagnóstico, tratamento e serviços de prevenção da TB, levando a uma expectativa de comprometimento de todo o progresso obtido no combate a TB nos últimos 5 anos.

Dessa forma, espera-se também um aumento importante no número de casos e mortes por TB nos próximos 5 anos. As estimativas indicam que sob a política de lockdown por 3 meses e 10 meses para e reestruturação dos serviços de saúde, o mundo pode assistir a 6,3 milhões de casos adicionais de TB entre 2020 e 2025, e um adicional de 1,4 milhões de óbitos por TB no mesmo período. Não é coincidência de que as regiões geográficas com as piores e devastadoras consequências da Covid-19 sejam aquelas também com alta incidência de TB. Um verdadeiro desastre. Para piorar esse cenário, o risco de erros diagnósticos em favorecimento da Covid-19, a subvalorização da coinfecção, e o tratamento com imunossupressão da resposta celular com possível exacerbação da tuberculose agravam os problemas da situação atual que enfrentamos.

Coinfecção

Assim como é provável que as medidas de Saúde Pública implementadas com o isolamento/distanciamento social exacerbem o estigma e as barreiras aos direitos humanos por comunidades marginalizadas, com consequências deletérias importante à Saúde Mental em populações específicas. Adicionalmente, espera-se que os pacientes com TB ativa, coinfecção TB-HIV ou doença pulmonar crônica, e venham a adquirir infecção por Covid-19 desenvolverão um quadro clínico que requer especial atenção, e vice-versa, inclusive quanto as sequelas que vão exigir medidas de reabilitação individualizadas e prolongadas, aumentando os custos gerais com essas doenças.

A tuberculose não desapareceu, e desconhece-se as complicações e mortalidade na coinfecção. Estudos anteriores na coinfecção da TB com influenza indicaram maior risco de morbidade, hospitalização e mortalidade na associação dessas doenças quando comparadas com a monoinfecção. O mesmo pode-se esperar da coinfecção Covid-19 e tuberculose.

Tais observações ressaltam a importância da manutenção dos programas e serviços de controle da TB de forma a evitar outras calamidades. Mesmo frente as necessidades de adaptações, é importante que os programas anti-TB se reformulem para estratégias como telemedicina, saúde informatizada e monitoramento efetivo de infecção por TB em comunidades para fornecer o cuidado adequado aos pacientes sintomáticos respiratórios afetados pela TB.

Saiba mais: Coinfecção pode ser comum em crianças com a doença pelo novo coronavírus?

Consequências do novo “normal”

Por outro lado, a Covid-19 paralelamente poderá contribuir indiretamente para reduzir o número de casos de infecções respiratórias por outros patógenos, inclusive M. tuberculosis. O uso de máscaras, a quarentena com distanciamento social e a lavagem de mãos possivelmente vão alterar o padrão de transmissibilidade de doenças. Por que não aproveitar a oportunidade atual para elaborar estratégias efetivas de vigilância, rastreio, diagnóstico e manejo terapêutico que tenham efeito sobre o controle das doenças infecciosas respiratórias?

Algum exemplo de sucesso nesse direcionamento para combate a diferentes patógenos tem sido observado, como através do desenvolvimento de terapias que modulam a resposta imune do hospedeiro. Estão em andamento os ensaios clínicos em fase I e II sobre o uso de anti-interleucina (IL) 1, anti-IL-6R, e terapias celulares com células tronco-mesenquimais alogênicas. Dessa forma, espera-se que a segurança das modalidades de tratamento anti-Covid-19 para controle da inflamação e restauração do tecido pulmonar podem também ter relevância para o tratamento da fisiopatologia da tuberculose.

Outros detalhes sobre as questões diversas dessa discussão podem ser observados nas referências abaixo.

Autor(a):

Referências bibliográficas

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