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Depressão pode aumentar o risco de recidiva de câncer de mama?

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Segundo os resultados de uma meta-análise publicada na edição deste mês da Molecular Psychiatry, a resposta é sim. Tanto depressão quanto transtornos de ansiedade foram associadas à recorrência e ao aumento de mortalidade em pacientes com história de câncer de mama.

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Mulher com depressão após câncer de mama

Características do estudo

Os pesquisadores reuniram 17 estudos de coorte que avaliaram depressão ou ansiedade em relação à recorrência, à mortalidade geral e à mortalidade específica por câncer de mama. O diagnóstico dos transtornos mentais poderia ser definido por avaliação clínica ou escalas autoaplicáveis. Estudos que incluíam pacientes com qualquer outro tipo de câncer foram excluídos. Os resultados finais indicaram que o diagnóstico de depressão elevou o risco de recorrência, mortalidade geral e mortalidade por câncer de mama em 24% (CI 1,08-1,43), 30% (CI 1,23-1,36) e 29% (CI 1,11-1,49), respectivamente.

Já o diagnóstico de ansiedade aumentou o risco de recorrência (HR 1,17; CI 1,02-1,34) e mortalidade geral (HR 1,13; CI 1,07-1,19), mas não o risco de mortalidade específica por câncer de mama (HR 1,05; CI 0,82-1,35). Poucos estudos examinaram depressão e transtornos de ansiedade como diagnósticos simultâneos, proporcionando menos dados para meta-análises. No entanto, foi possível estimar a relação desses transtornos em conjunto em relação à mortalidade geral e mortalidade câncer-específica, indicando um aumento significativo em ambos os índices (mortalidade geral: HR 1,34; CI 1,24-1,45; mortalidade específica: HR 1,45; CI 1,11-1,90).

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Subanálises foram apresentadas para importantes fatores de confusão em potencial, como idade, momento e método de diagnóstico dos transtornos e duração do follow-up. Apesar de variações no hazard ratio, tais subanálises mantinham o sentido global dos achados e não alteravam a compreensão final dos resultados, antes fornecendo dados adicionais para interpretações finas do estudo.

Para explicar as relações encontradas, os autores levantaram três racionais não excludentes entre si. Primeiro, pacientes com depressão e ansiedade frequentemente apresentam comorbidades e comportamentos ligados a piores desfechos, como tabagismo, abuso de bebidas alcoólicas, obesidade e insônia. Além disso, esses pacientes estão mais suscetíveis à mortalidade por causas não naturais, como suicídio. Uma segunda explicação diz respeito à má aderência terapêutica. Indivíduos com com transtornos psiquiátricos podem mais frequentemente resistir aos tratamentos propostos, piorando seu prognóstico. Por fim, pacientes com depressão e ansiedade apresentam alterações no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, atingindo maiores níveis séricos de catecolaminas e cortisol, o que por sua vez pode agravar o status tumoral através de diferentes vias biológicas.

Apesar dos resultados significativos, importantes limitações do estudo devem ser apontadas. Primeiramente, câncer de mama é uma considerável simplificação nosológica, tratando-se de um acometimento que apresenta extrema heterogeneidade para a qual os critérios de inclusão desta revisão não atentam. Contudo, tal redução conceitual é por vezes necessária em meta-análises, posto que o volume de estudos frequentemente não permite perguntas de pesquisa com delineamentos demasiadamente estreitos. Em segundo lugar, uma crítica semelhante pode ser feita ao diagnóstico dos transtornos mentais, inespecífico em relação ao método de avaliação, à gravidade dos sintomas e, mais importante, à temporalidade. Vários estudos avaliaram depressão e ansiedade apenas uma vez, ignorando flutuações de sintomatologia. Contudo, os autores se mostram cientes dessas limitações que refletem sobretudo uma escassez da literatura avaliada. Além disso, chama a atenção a baixa heterogeneidade apresentada nas análises, indicando uma tendência nos resultados que minimiza eventuais dissonâncias entre amostras.

Conclusão

Em síntese, o estudo apresentado indica uma relação entre depressão e ansiedade com recidiva e mortalidade em pacientes com câncer de mama, sejam por vias comportamentais ou biológicas. Tal achado destaca a importância de um adequado rastreamento para possíveis sinais de sofrimento psicológico nesses pacientes. Para além do benefício patente de promover bem-estar e qualidade de vida, propósito último de qualquer relação médico-paciente, propor intervenções direcionadas à saúde mental nesses casos pode talvez também ser a diferença entre a vida e a morte.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Wang X, Wang N, Zhong L, Wang S, Zheng Y, Yang B, et al. Prognostic value of depression and anxiety on breast cancer recurrence and mortality: a systematic review and meta-analysis of 282,203 patients. Mol. Psychiatry 2020; 25: 3186–3197. doi: 10.1038/s41380-020-00865-6

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