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Desafios psicológicos de pacientes grávidas e no pós-parto

Tempo de leitura: 4 minutos.

O ciclo gestacional é um período que envolve transformações profundas para todas as mulheres nos aspectos físicos, psíquicos e sociais. Durante essa fase é possível aparecer importantes alterações na personalidade das pacientes, o que pode gerar sofrimento psíquico com intensidades variadas, tornando-se um fator dificultando na criação de um vínculo afetivo seguro entre mães e filhos.

Não existe uma única causa conhecida para depressão pós-parto. A condição pode estar associada a fatores físicos, emocionais, estilo e qualidade de vida, além de ter ligação também com histórico de outros problemas e transtornos mentais. No entanto, a principal causa da depressão pós-parto é o desequilíbrio de hormônios em decorrência da gravidez.

No Brasil, em cada quatro mulheres, mais de uma apresenta sintomas de depressão no período de seis a 18 meses após o nascimento do bebê. A constatação é do estudo Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study, 2011/2012, realizado pela pesquisadora Mariza Theme, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), e publicado na edição de abril de 2016 do Journal of Affective Disorders. A prevalência desse distúrbio no país foi mais elevada que a estimada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para países de baixa renda, em que 19,8% das parturientes apresentaram transtorno mental, em sua maioria depressão.

A depressão pós-parto traz inúmeras consequências ao vínculo da mãe com o bebê, sobretudo no que se refere ao aspecto afetivo. “A mulher depressiva, normalmente, amamenta pouco e não cumpre o calendário vacinal dos bebês. As crianças, por sua vez, têm maior risco de apresentar baixo peso e transtornos psicomotores”, esclarece a pesquisadora Mariza Theme.

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De acordo com Michele Silveira, psicóloga e psicanalista, pouca mulheres procuram ajuda profissional quando sentem algum sintoma da depressão pós-parto. E a razão disso está no preconceito ainda latente na sociedade em geral. “Aqui no país, a doença mental em si ainda não é muito bem aceita, e há um grande preconceito em relação à doença mental. E isso se reflete muito mais no pós-parto, uma vez que a gravidez é sempre vista como uma dádiva, uma benção. As pessoas sempre idealizam que todas as mulheres são totalmente preparadas para serem mães. E que, portanto, elas não têm razão para ficarem tristes durante esse período. Mas, o que essas pessoas esquecem é que existem diversos hormônios circulando durante e após o parto. E que esses hormônios corroboram para esse quadro depressivo”, aponta.

Luciana Rocha, psicóloga neonatal e de saúde, também concorda que falta uma cultura da valorização da doença mental no país. “A doença mental ainda está associada a estigmas e preconceitos como a pessoa ser fraca, fracassada, impotente, etc. E isso são fatores que levam as mulheres a se afastarem do tratamento. Junto com isso, há uma supervalorização de uma felicidade quase inatingível. O contrário disso é visto como fracasso”, diz a especialista, que complementa explicando que “o período gestacional não protege ninguém de nenhuma condição psíquica, pelo contrário. Durante essa fase da gravidez, a mulher tem, pelo menos, 30% a 35% mais chances de apresentar qualquer distúrbio psicossocial”.

Papel da equipe médica no diagnóstico da depressão pós-parto

A abordagem multidisciplinar dessas pacientes pode contribuir muito no diagnóstico precoce e no encaminhamento terapêutico, evitando que quadros mais brandos evoluam para situações graves, como a psicose puerperal. A atuação harmônica da equipe médica, formada pelo obstetra, pediatra, psiquiatra, enfermeiro e psicólogo, será fundamental para reduzir o impacto das situações de depressão pós-parto (DPP).

O diagnóstico precoce vai propiciar o encaminhamento para o atendimento conjunto com o psicólogo e/ou psiquiatra, tratando e esclarecendo a paciente sobre a condição de DPP.

“O médico que atende a uma gestante ou a uma mulher que está no puerpério, e suspeita de uma possível depressão deve encaminhá-la para uma rede de apoio. Essa rede de profissionais vai poder fechar a diagnóstico e oferecer o procedimento necessário para o tratamento e a cura. A realização de uma psicoterapia, de preferência, com profissionais especializados como os psicólogos perinatais, é o mais indicado. E, sempre que necessário, deve realizar o encaminhamento para um psiquiatra”, exemplifica a Luciana Rocha, psicóloga neonatal e de saúde.

A chamada Escala de Edimburgo serve para a identificação de sinais de depressão pós-parto, sendo acessível para qualquer profissional de saúde. Na opinião da psicóloga neonatal, essa escala deveria ser utilizada como rotina pelos médicos, tanto no final da gestação, quanto neste período do puerpério. “E a partir da coleta dos dados dessa escala, juntamente com a escuta diferenciada e a observação técnica, que o médico deve fazer esse encaminhamento assertivo para um psicólogo e um psiquiatra”.

Para Michele Silveira, o principal sintoma de uma depressão pós-parto ainda é a dificuldade da criação de um vínculo com o bebê. “Quando essa criança não é esperada com amor, com alegria ou com expectativa, essa mãe possui mais probabilidade de desenvolver uma depressão pós-parto e precisa de ajuda emocional”, analisa a profissional de psicologia.

Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo

A Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS) é um questionário de apenas dez itens. Ele foi desenvolvido para identificar as mulheres que apresentaram depressão pós-parto. Os itens da escala correspondem a vários sintomas de depressão clínica, tais como:

  • Sentimentos de culpa;
  • Distúrbios do sono;
  • Baixa energia;
  • Anedonia (perda da capacidade de sentir prazer, próprio dos estados gravemente depressivos);
  • Ideação suicida.

A Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo pode ser utilizada durante e após a gravidez.

No Sistema Único de Saúde (SUS), os profissionais são capacitados para identificar, durante o pré-natal, sinais e fatores de risco que podem levar a gestante a desenvolver depressão após o nascimento do bebê. As equipes da Saúde da Família podem solicitar o apoio matricial dos profissionais de saúde mental, por intermédio dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf) ou de outras equipes de saúde mental do município.

Alguns casos considerados mais graves, que precisem de um cuidado intensivo, devem ser encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou outros serviços de referência em saúde mental do município ou da região. Os casos que apresentem riscos, como de suicídio ou de infanticídio, devem ser encaminhados para a internação, de preferência em hospital geral.

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