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Novembro azul: a saúde mental de homens com câncer de próstata

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A campanha de conscientização sobre o câncer de próstata, realizada todo mês de novembro (“novembro azul”), nos convida a discutir amplamente sobre este assunto, inclusive sob a ótica da saúde mental. Por isto, vamos sintetizar algumas informações sobre este tema discutidas no artigo The Anxiety Depression Pathway Among Men Following a Prostate Cancer Diagnosis: Cross-Sectional Interactions Between Anger Responses and Loneliness, publicado este ano no American Journal of Men’s Health.

Novembro azul: a saúde mental de homens com câncer de próstata

Achados do estudo

Segundo este trabalho, homens com câncer de próstata podem vir a desenvolver sintomas depressivos e/ou ansiosos. É possível também que um desses quadros leve ao outro (no caso, seria mais frequente que sintomas ansiosos desencadeassem os depressivos do que o inverso), embora os dois também possam se sobrepor. Contudo, outros quadros também podem precipitar sintomas depressivos e ansiosos, com destaque para a solidão, as dificuldades sociais e possivelmente o sentimento de raiva — sendo este um dos focos do estudo.

A raiva pode ser uma forma de manifestação do sofrimento, especialmente quando o homem se encontra inserido em certo contexto no qual a expressão de outros sentimentos ou sintomas podem ser considerados como negativos (como uma fraqueza, por exemplo). Entretanto, já se sabe que o sentimento de raiva também parece se associar à alterações da imunidade, além de poder comprometer a capacidade de se relacionar e ser responsável por posturas mais pessimistas, impactando no bem-estar geral. É comum também que a população masculina tenha uma relação pouco adaptativa em relação ao sentimento de raiva, tentando suprimi-la — o que pode levar a mais sintomas ansiosos e depressivos. Dentre as consequências do sentimento de raiva, os autores acreditam que o impacto social seja o domínio que mais se destaca, possivelmente se relacionando ao sentimento de solidão.

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Como a intenção dos autores era estudar de que forma esses pontos se relacionam, partiram para um estudo transversal com 105 homens canadenses com câncer de próstata. O estudo foi realizado através da internet com uma amostra por conveniência e todos os que completassem os questionários teriam a oportunidade de concorrer a um prêmio em dinheiro. A intenção era avaliar as dimensões da raiva e sua relação com a solidão e os sintomas depressivos e ansiosos nesta população. As escalas usadas foram PHQ-9 para depressão, GAD-7 para ansiedade, DAR-5 para raiva e UCLA Loneliness Scale-3 para solidão.

A média de idade encontrada foi de 69,12 anos e a grande maioria dos participantes se autointitulava como heterossexual. Na média, o diagnóstico de câncer de próstata teria sido feito cerca de 7,4 anos antes, sendo que 29,3% da amostra ainda estavam em tratamento no momento. No total, 63,8% dos participantes passaram pela cirurgia de prostatectomia e 20% pela terapia de privação androgênica.

No geral, os autores encontraram associações entre ansiedade, raiva, solidão e depressão nesta amostra de homens com câncer de próstata. Neste caso, sintomas leves de depressão, ansiedade e autoinjúria/autolesão foram até mais frequentes do que os encontrados em outros trabalhos. Da mesma forma, foi encontrada uma maior taxa de pacientes com pontuação acima do corte para solidão, sendo que mais da metade desse grupo também pontuou para isolamento social. Embora a maioria não tenha pontuado nos questionários para fechar os diagnósticos de depressão e ansiedade, muitos apresentaram sintomas afetivos relacionados à ansiedade e à solidão, inclusive em maior proporção do que na população geral. Os autores também encontraram uma relação entre sintomas ansiosos e sentimento de raiva interferindo na conexão social, especialmente entre aqueles que relataram maior solidão. É possível, então, que solidão e ansiedade interajam, levando a um maior risco de depressão por intermédio da aspectos relacionados à raiva. Apesar de a sobrevida em 5 anos após o diagnóstico desse tipo de câncer ser alta (93%), muitos pacientes podem sofrer de forma prolongada com suas consequências, como redução da qualidade de vida até com o efeito do tratamento. Trabalhos anteriores sobre qualidade de vida nesta população sugerem que o câncer de próstata pode influenciar nos níveis de sofrimento e conexão social, o que também foi encontrado neste estudo.

Em relação à depressão, os autores dividiram suas queixas em 2 grupos: os sintomas afetivos e os sintomas somáticos. Neste trabalho, os autores encontraram mais relações com os sintomas afetivos, o que pode indicar que as questões relativas às relações contribuem para a experiência emocional desta população. Os autores também destacam que a ansiedade foi capaz de predizer a apresentação desses sintomas afetivos da depressão. Os resultados sugerem que as consequências sociais da raiva — até mais do que o próprio sentimento em si — também contribuem para os sintomas afetivos da depressão. Por sua vez, isto pode repercutir também em maior solidão entre homens com câncer de próstata.

Ouça mais: Novembro Azul: quando devemos rastrear e tratar o paciente com câncer de próstata? [podcast]

Sobre a raiva, embora estudos indiquem que este seja um sentimento comum entre homens, especialmente naqueles que aderem a certos valores considerados tipicamente masculinos em determinadas culturas (ex: ser invulnerável, forte e competitivo), seu impacto sobre aspectos psicológicos ainda são negligenciados. Esta também pode ser a razão por que homens evitam procurar atenção psicológica no contexto de doença. Apesar de o sentimento de raiva poder ser até normalizado e legitimado entre homens, também é motivo de crítica e distanciamento social. Parece também que homens com câncer de próstata que tenham uma tendência a suprimir seus sentimentos negativos, apresentem também uma associação entre raiva e depressão. Outro ponto relevante diz respeito à possibilidade de os efeitos adversos do tratamento (ex: incontinência urinária ou disfunção sexual) poderem causar sentimentos de ansiedade e raiva — que, por sua vez, também poderiam se desdobrar em depressão e solidão.

O que fazer?

Vários destes aspectos aqui discutidos podem ser modificados e/ou alvo de intervenção — como a ansiedade, a solidão e os fatores sociais ligados à raiva. Ao atuar sobre eles, é possível que também haja um impacto sobre os sintomas depressivos nestes homens. Além disso, é necessário também considerar a repercussão desses sentimentos, sobretudo a raiva, sobre parceiros(as) e familiares e, portanto, sua relação com a solidão. Estratégias, como aceitação ou ressignificação, são possíveis formas de abordagem, buscando uma melhor qualidade de vida e melhora do padrão de relacionamentos. Um dos objetivos deve ser trabalhar as emoções ao invés de encorajar sua supressão. Neste ponto também há a necessidade de trabalhar os profissionais de saúde e sua formação para que possam reconhecer e abordar isso de uma melhor forma. Por isso, faz-se necessária uma reflexão sobre as questões socioculturais e crenças pessoais que podem impedir esses homens de buscar o apoio psicossocial que lhes beneficia, além de treinamento e educação para identificar e lidar com sentimentos desafiadores, como a raiva.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Rice SM, Kealy D, Ogrodniczuk JS, Seidler ZE, Montaner G, Chambers S, Oliffe JL. The Anxiety Depression Pathway Among Men Following a Prostate Cancer Diagnosis: Cross-Sectional Interactions Between Anger Responses and Loneliness. Am J Mens Health. 2021 May-Jun; 15(3): 15579883211023699. Published online 2021 Jun 18. doi: 10.1177/15579883211023699.
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