O que a Cardiologia tem a ver com a Oncologia? A resposta é: tudo!

Esse artigo tem a intenção de alertar médicos e pacientes sobre a cardiotoxicidade dos quimioterápicos e da radioterapia. Clique e saiba tudo sobre o assunto.

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Meus caros, esse texto não diz respeito às neoplasias primárias do coração que são encontradas em apenas 1% das autópsias, tão pouco das metástases de outros órgão para o coração, que estão presentes em apenas 6% dos pacientes com doença maligna. Esse artigo tem a intenção de alertar médicos e pacientes sobre a cardiotoxicidade dos quimioterápicos e da radioterapia.

É preciso salientar inicialmente que, na grande maioria das vezes, as neoplasias malignas têm fatores de risco comuns a doença arterial coronariana (DAC), e à medida que a assistência a DAC melhora e aumenta-se a sobrevida desses pacientes, as neoplasias têm sua incidência e prevalência aumentadas.

Era de se esperar que o tratamento do câncer também evoluísse com novas modalidades terapêuticas e maior número de casos, maior número esse que permitiu analisar com maior frequência os efeitos colaterais dos quimioterápicos.

Tudo começa aproximadamente na década de 60 com o surgimento das antraciclinas. Potentes quimioterápicos, estes permitiram cura e maior sobrevida na doença neoplásica, porém às custa de lesão cardíaca irreversível, dose dependente.

Os principais fatores de risco para lesão cardíaca no uso das antraciclinas são os extremo de idade, disfunção ventricular prévia, hipertensão arterial, diabetes mellitus, associação de quimioterápicos, radioterapia de peito e suscetibilidade genética.

O fator relacionado à lesão cardíaca parece ser alteração no metabolismo do ferro, do retículo sarcoplasmático e das mitocôndrias, levando a apoptose celular, necrose e fibrose.

Mais do autor: ‘Devo prescrever AAS para pacientes sem doença arterial coronariana?’

O cardiologista deve acompanhar de perto os pacientes em uso de antraciclinas, principalmente aqueles que acumulam doses maiores que 200mg/m2. O acompanhamento deve ser feito com exames de imagem, principalmente o ecocardiograma, e marcadores bioquímicos (BNP e troponina) e caso haja queda da fração de ejeção maior que 10% ou abaixo dos 50% o cardiologista deve ter autonomia para suspender temporariamente ou até contraindicar o tratamento quimioterápico.

É importante ressaltar que a insuficiência cardíaca tem prognóstico pior que diversas neoplasias e pode comprometer seriamente a evolução do paciente em tratamento.

Outra droga de importante comprometimento cardíaco é o inibidor do receptor do fator de crescimento epidermal humano 2 (HER2) anticorpo monoclonal trastuzumab. Ele causa lesão cardíaca justamente por inibir o HER2, altamente expresso no músculo cardíaco e causador de insuficiência cardíaca em murinos quando tem seu gene nocauteado.

O trastuzumab causa insuficiência cardíaca reversível com a suspensão do tratamento e pode ser reiniciado após melhora da função cardíaca.

Outras drogas como a ciclofosfamida, 5-fluoracil, paclitaxel, a radioterapia e outros anticorpos podem causar também insuficiência cardíaca, hipertensão, doença arterial coronariana, pericardites, entre outras complicações cardíacas para as quais o cardiologista deve estar sempre atento.

Portanto, é impreterível que um paciente em tratamento oncológico tenha um acompanhamento cardiológico em paralelo e que cardiologista e oncologista conversem entre si e definam a melhor e menos prejudicial estratégia para o paciente.

Veja mais: ‘Cardiotoxicidade: tabela com drogas e eventos adversos’

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