Prognóstico e evolução na síndrome inflamatória multissistêmica associada à Covid-19

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Apesar da infecção pelo novo coronavírus apresentar, na maioria dos casos, um curso mais leve em crianças do que aquele apresentado por adultos, uma entidade de curso mais grave tem sido descrita: a síndrome inflamatória multissistêmica associada a Covid-19 (MIS-C). O quadro clínico dessa condição apresenta características semelhantes com a doença de Kawasaki e a síndrome do choque tóxico, e costuma se apresentar com inflamação sistêmica e sintomas gastrointestinais, evoluindo com complicações cardiovasculares e levando pacientes à falência múltiplas de órgãos e choque hemodinâmico.

Por ser uma entidade nova, ainda faltam dados mais globais a respeito desse quadro, incluindo quais são as principais manifestações e fatores prognósticos. Assim, um primeiro estudo com dados internacionais foi publicado em fevereiro de 2021 na revista Pediatrics, realizado por pesquisadores europeus e dos Estados Unidos e tentando responder a essas questões.

Leia também: Síndrome multissistêmica pós-Covid-19: até 100 crianças são internadas por semana, no Reino Unido

A síndrome inflamatória multissistêmica associada a Covid-19 apresenta semelhanças à doença de Kawasaki e à síndrome do choque tóxico

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Método

O estudo, de caráter retrospectivo, analisou prontuários de pacientes menores de 18 anos que foram hospitalizados por MIS-C em hospitais participantes da Europa, América e Ásia no período de 1 de março de 2020 a 15 de junho de 2020. Os pacientes foram incluídos de acordo com a apresentação inicial em três grupos: (i) Doença de Kawasaki-like, com preenchimento de pelo menos quatro critérios para essa doença; (ii) Doença de Kawasaki incompleta-like, com pacientes sem preenchimento de mais de quatro critérios da doença; (iii) choque, com pacientes que necessitaram de pelo menos 20 mL/kg de fluidos endovenosos à admissão.

Foram também revisados dados gerais dos pacientes (como idade, peso etc.), sintomas principais na admissão, exames laboratoriais, eletrocardiograma na admissão, ecocardiograma nas primeiras 24 horas após admissão e dados relacionados à infecção pelo SARS-CoV-2 (tanto PCR quanto sorologias). Além disso, também se incluiu os desfechos mais importantes, como admissão na Unidade de Terapia Intensiva, suporte inotrópico, ventilação terapia de substituição renal, uso de membrana de circulação extracorpórea e morte.

Resultados

Foram incluídos 183 pacientes, com média de idade de 7 ± 4,7 anos. Houve predominância de pacientes do sexo masculino (59,6%) e da raça negra (30,6%). A obesidade foi a comorbidade mais frequente nesse grupo de pacientes (26,9%). Além disso, houve identificação da infecção pelo SARS-CoV-2 (recente ou atual) em 62,6% dos pacientes.

Com relação aos sintomas, todos os pacientes apresentaram-se com febre e a maioria apresentou sintomas gastrointestinais (63,9%). Os pacientes com apresentação de choque tiveram idades maiores do que nos outros grupos (9,2 ± 4,0 vs 3,8 ±3,6 anos, p-valor < 0,001). Além disso, esses pacientes apresentaram taxas maiores de sintomas gastrointestinais, neurológicos ou cardiorrespiratórios e com maiores taxas de sorologia para SARS-Cov-2 positivas do que nos outros grupos.

Indicadores laboratoriais relacionados à apresentação de choque foram: plaquetometria menor e maiores níveis de pró-BNP, D-dímero, proteína C reativa e ferritina. Apesar de muitos pacientes se apresentarem com alterações eletrocardiográficas, esses achados não estiveram estatisticamente relacionados à apresentação de choque. Já os pacientes com choque apresentaram menor índice de dilatação de coronárias e maiores índices de derrame pericárdico, valvulites e disfunção de ventrículo esquerdo, quando comparado aos outros grupos.

Saiba mais: Covid-19: alterações imunológicas em crianças com síndrome inflamatória multissistêmica

O tratamento mais comumente utilizado nesses pacientes foi imunoglobulina intravenosa (96,2% dos pacientes com doença de Kawasaki-like e 87,8% nos outros grupos). Corticoides também foram utilizados em 55,6% dos pacientes com doença de Kawasaki-like e 57,7% dos outros grupos. Já a aspirina foi utilizada em 74,1% dos pacientes com doença de Kawasaki -like e em 66,7% nos outros grupos. Outras medicações que foram utilizadas incluíram: azitromicina, anakira, infliximab e hidroxicloroquina, mas em poucos pacientes de todos os grupos.

Com relação aos desfechos, o estudo encontrou que 39,3% dos pacientes necessitaram de suporte inotrópico, 23,5 % necessitaram de ventilação mecânica e 2,2% necessitaram de ECMO. Houve óbito de três crianças. Duração curta de sintomas antes da admissão (ou seja, pacientes com curso rápido de doença) foi associada com pior prognóstico.

Novidades trazidas pelo estudo

Um aspecto interessante do estudo é que os pacientes com doença de Kawasaki-like demonstraram menos gravidade do que os outros grupos. Esses pacientes eram mais estáveis na admissão, tinham menos sintomas e menores índices de inflamação do que os outros. Também apresentaram menores índices de complicações cardíacas, com poucos pacientes desse grupo apresentando aumento das artérias coronárias.

Outra questão interessante é o fato de que pacientes com choque na apresentação se diferem dos pacientes com doença de Kawasaki-like: são pacientes mais velhos, com alterações cardíacas diferentes daquelas encontradas na doença de Kawasaki, e com apresentação mais precoce (geralmente os pacientes com doença de Kawasaki apresentam alterações cardíacas após 2-3 semanas do início dos sintomas). Esses dados sugerem que essas duas entidades são, de fato, entidades clínicas distintas.

Apesar de ainda necessitarmos de mais dados a respeitos desses quadros, esse artigo já sugere alguns pontos importantes para os pediatras que trabalham em emergências pediátricas e unidades de terapia intensiva: devemos ter cuidado redobrado com pacientes que se apresentam com poucos dias de sintomas, e naqueles que apresentam quadro de choque na apresentação inicial. Esses pacientes provavelmente serão os que vão evoluir com doença mais grave. No contexto da atual pandemia, e com a perspectiva de maiores taxas de infecção em grupos pediátricos, é possível que cada vez mais vejamos essa síndrome inflamatória multissistêmica associada à Covid-19.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Bautista-Rodriguez C, Sanchez-de-Toledo J, Clark BC, et al. Multisystem Inflammatory Syndrome in Children: An International Survey. 2021; 147(2):e2020024554. doi: 10.1542/peds.2020-024554

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