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paciente com câncer, usando máscara, em frente à janela, com risco de suicídio

Qual o risco de suicídio após um diagnóstico de câncer?

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Neste artigo publicado no JAMA Psychiatry discute-se a relação entre o diagnóstico de câncer e o risco de suicídio na Inglaterra. Obviamente receber esse tipo de diagnóstico leva à situações de estresse e angústia, trazendo diversos medos à tona, sendo possível que isso tenha alguma influência no desenvolvimento da ideação suicida.

Apesar do aumento da prevalência de câncer, a relação entre os cuidados clínicos e o suporte de saúde mental ainda continua limitada. E mesmo as taxas de suicídio não sendo tão altas, esse fator ainda constitui uma causa de óbito que poderia ser prevenida. A presença de transtornos mentais relacionados (ex: depressão) requer a necessidade de tratamento, o que pode melhorar a qualidade de vida e à adesão ao tratamento.

Os autores referem que este seria o primeiro estudo inglês a avaliar o risco de suicídio entre pacientes diagnosticados com câncer quando comparado à população geral. A análise feita em relação ao tipo de câncer e ao estadiamento, fatores sociodemográficos e tempo desde que o diagnóstico foi feito.

Leia também: Coronavírus e câncer: quais os riscos e prognóstico desses pacientes?

Câncer e suicídio

A população estudada era de pacientes que receberam diagnóstico de câncer entre janeiro de 1995 e dezembro de 2015, com idades entre 18 e 99 anos e registrados na base de dados do sistema público de saúde inglês, residentes nessa região. Foram avaliadas as causas de óbito e aqueles que tinham como causa suicídio ou cuja causa não foi revelada (uma decisão legal que registra a morte, mas não sua causa) foram selecionados. A renda foi estimada com o uso de instrumentos específicos, a etnia foi referida pelos próprios pacientes.

Os pacientes foram admitidos para análise estatística a partir do dia em que receberam o diagnóstico de câncer e foi finalizada na data do seu óbito, na data em que o seguimento foi perdido ou numa data arbitrária, convencionada pela equipe de avaliação. As taxas de mortalidade e o risco absoluto foram calculados através de técnicas padronizadas. A expectativa de morte na população foi dividida de acordo com a idade, o gênero e o período de tempo.

Também foram feitos testes para avaliar a heterogeneidade e modelos de regressão multivariada a fim de avaliar os efeitos simultâneos nos fatores de interesse (etnia, sexo, tipo de tumor, idade do diagnóstico, período de segmento, etc). Os modelos multivariados produziram riscos relativos, resultando na taxa de mortalidade e risco absoluto ajustado para todos os fatores.

Este trabalho tem boa relevância já que conseguiu abranger toda a população de um país a partir de uma base de dados ampla, com informações precisas e que diminuíram as chances de vieses. O seguimento de uma população tão grande ao longo do tempo também confere estimativas robustas sobre como o risco varia ao longo do tempo desde o momento do diagnóstico. A avaliação da etnia também permitiu avaliar o risco em determinados grupos.

Contudo, há sempre o risco de as mortes por suicídio terem sido subnotificadas, o que pode fazer com que o risco de suicídio em pacientes com câncer seja subestimado. Outra importante limitação foi que não conseguiram ajustar os dados para a presença de transtornos mentais ou outros fatores de confusão prévios ao diagnóstico de câncer (apesar de um estudo anterior ter colocado que o risco de suicídio nessa população não pode ser melhor explicado por transtornos mentais preexistentes).

Veja mais: Qual a relação entre o suicídio de crianças e adolescentes e a pobreza?

Além disso, o baixo número de óbitos não permitiu a realização de modelos de regressão multivariadas para tipos específicos de câncer ou para análise de subgrupos para avaliar se as tendências podem ser explicadas por diferenças na distribuição em outras medidas variáveis, apesar de o modelo adotado sugerir que a variação nas características dos pacientes não foi melhor explicada pelas diferenças em outras variáveis, inclusive o tipo de câncer.

Resultados

Os resultados indicam que ser diagnosticado com câncer na Inglaterra confere uma chance 20% maior de risco de suicídio, o equivalente a 0,08% de todas as mortes em pacientes com câncer, ou 2.491 mortes que poderiam ter sido evitadas. Também foram encontrados fatores específicos que caracterizam aqueles sob maior risco, como o tipo de câncer associado (especialmente o mesotelioma, seguido pelos cânceres de pâncreas, pulmão, esôfago e estômago). Os primeiros seis meses após o diagnóstico configuram o período de maior risco.

Vários outros estudos em diversos países já encontraram um elevado risco de suicídio em pacientes com câncer, sendo os achados deste trabalho compatíveis com essa informação. Os pacientes sob maior risco seriam aqueles com um pior prognóstico, com baixas taxas de sobrevivência e opções terapêuticas limitadas. O risco também varia de acordo com o tempo desde o diagnóstico, sendo maior nos primeiros 6 meses após o mesmo, o que também é compatível com a literatura.

A relevância clínica está na identificação dos tipos específicos de câncer associados a um risco significativo de suicídio no primeiro semestre desde a notícia. A literatura corrobora que as primeiras semanas após o diagnóstico é a mais preocupante, diminuindo o risco a partir daí. Logo, essa fase precoce constitui um período crítico.
Os mecanismos envolvidos nesse processo são heterogêneos e dizem respeito à outros fatores que vão além da presença de um transtorno mental.

O choque de receber esse diagnóstico e as perdas envolvidas podem ser encaradas como ameaças, relacionando-se até mesmo com sintomas depressivos ou ansiosos. A prevalência de transtorno depressivo maior em pacientes diagnosticados com câncer é de 15%, 2% a mais do que na população em geral. Contudo, para se fechar o diagnóstico de depressão, o paciente deve apresentar pelo menos 2 semanas de humor deprimido. No entanto, entre os pacientes que receberam o diagnóstico de câncer, a primeira semana é a de maior risco. Logo, ou esses pacientes já possuíam diagnóstico de depressão antes de saberem que têm câncer ou o suicídio foi uma reação à essa descoberta, reforçando que um transtorno mental prévio pode ou não estar relacionado ao ato.

Apesar dos fatores econômicos serem entendidos como fator de risco para suicídio, não foi encontrada uma relação consistente nesse sentido e alguns achados foram divergentes.

Alguns tipos de câncer podem ter como sintoma a depressão e alguns tratamentos também podem ter a depressão como efeito colateral. Isso deve ser levado em consideração juntamente com possíveis reações impulsivas ao diagnóstico.

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Conclusões

Não é possível prever o comportamento suicida e a maioria das pessoas consideradas com alto risco não irá morrer por essa causa. Contudo, os achados deste trabalho permitiram avaliar uma janela de tempo sob a qual os profissionais de saúde devem garantir monitorização dos pacientes com câncer, em especial aqueles com prognóstico reservado e/ou com fatores de risco modificáveis (ex: uso de substâncias ilícitas, transtornos mentais ou dor crônica).

Procurar por casos ainda não diagnosticados de transtorno depressivo ou ansioso pode ajudar a melhorar a qualidade de vida e a adesão ao tratamento, diminuindo o risco de suicídio. Deve-se considerar também a oferta de apoio psicológico e talvez um rastreio para avaliar comportamento e ideação suicida após o diagnóstico. Outra importante estratégia é a adoção de medidas preventivas. Por exemplo, uma das medidas de maior eficácia na prevenção do suicídio é a restrição de acesso à meios que o paciente possa usar com essa finalidade. Logo, nos paciente com câncer e queixa de dor crônica deve-se dar opção de outros analgésicos que não opioides, por exemplo.

Autora:

Referência bibliográfica:

  • Henson KE, Brock R, Charnock J, et al. Risk of Suicide After Cancer Diagnosis in England. JAMA Psychiatry. 2019;76(1):51-60. doi:10.1001/jamapsychiatry.2018.3181.
    https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2714596

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