Clínica Médica

Relação entre apneia obstrutiva do sono e arritmia cardíaca

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Introdução

A síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) é definida como uma obstrução completa ou parcial das vias aéreas superiores durante o sono. Acarreta em períodos de apneia, dessaturação de oxi-hemoglobina e despertares frequentes com consequente hipersonolência diurna.

Alguns dos fatores associados à SAOS  são história familiar, obesidade, aumento da circunferência cervical,hipotireoidismo, diabetes, acromegalia e gravidez. Estima-se que, nos Estados Unidos, 4% dos homens e 2% das mulheres adultas tenham apneia do sono sintomática.

Tem–se verificado aumento na taxa de mortalidade cardiovascular em pacientes portadores da SAOS. Devemos inclui-la como fator de risco cardiovascular. Pois se trata de uma condição frequentemente não diagnosticada.

Fisiopatologia

Quando ocorre obstrução das vias aéreas superiores durante o sono gera alterações no fluxo oro-nasal com aumento do esforço respiratório. As consequências dessa alteração são a queda da saturação da oxi-hemoglobina, hipoxemia e hipercapnia.

Esse processo ativa o sistema nervoso simpático. Há, então, aumento da frequência cardíaca, da resistência vascular e da pressão arterial, acarretando em um microdespertar. Durante a noite, há alternância entre eventos respiratórios anormais e os despertares. Na medida em que a apneia se prolonga, há aumento da hipoxemia e da hipercapnia, levando à vasoconstrição pulmonar, e hipertensão pulmonar transitória. A hipoxemia recorrente,que ocorre  inúmeras vezes durante a noite, leva ao desenvolvimento de estresse oxidativo e formação de radicas livres-fator de risco para desenvolvimento de doença cardiovascular.

Leia mais: Conheça nova diretriz para tratamento da apneia do sono

Arritmias cardíacas

As seguintes arritmias são as mais comuns durante o sono: taquicardia ventricular não-sustentada, taquicardia sinusal, bloqueio atrioventricular de 2º grau e extrassístoles frequentes.

Estudos demonstram que a SAOS atua como fator de risco independente para o desenvolvimento de Fibrilação Atrial (FA). A SAOS moderada a grave aumenta em até 4 vezes o risco de FA. O remodelamento atrial pelo aumento do tônus simpático, pelas variações da pressão arterial e pela distensão atrial são responsáveis pelas arritmias atriais em combinação com a  hipoxemia intermitente.

A oscilação entre o sistema simpático e parassimpático que ocorre durante o sono em pacientes com SAOS ocasionam um cenário perfeito para o surgimento das arritmias. O predomínio do tônus parassimpático favorece as bradiarritmias, enquanto o predomínio do tônus simpático as taquiarritmias atriais e ventriculares.

O remodelamento miocárdico que ocorre secundário a oscilações da frequência cardíaca, pressão arterial e pressão intratorácica levando a HVE,a disfunção sistólica e diastólica do VE aumentando o risco de arritmias ventriculares e morte súbita.

Vários estudos parecem comprovar a ação benéfica do CPAP nos pacientes com SAOS. Ele ocasiona diminuição da pressão intratorácica, da hipóxia, da acidose e dos despertares,  reduzindo as arritmias cardíacas, principalmente, a FA.

Pacientes com SAOS apresentam risco 25% maior de recorrência de FA após ablação comparados com pacientes sem SAOS. Pacientes com SAOS apresentam menor sucesso na ablação e mais complicações relacionadas ao procedimento. Pacientes em tratamento com CPAP tiveram menores taxas de recorrência de FA.

Veja também: Polissonografia ajuda a identificar risco cardiovascular na apneia do sono

Conclusões

A apneia obstrutiva do sono e as doenças cardiovasculares possuem alta prevalência na população mundial. Existe relação da apneia obstrutiva do sono com doenças cardiovasculares e morte súbita. Os distúrbios do sono por serem subdiagnosticados não são tratados adequadamente.

Torna-se necessário o tratamento da SAOS com a finalidade de melhorar a  qualidade de vida e aumentar a sobrevida da população.

Autor: 

Referências:

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Publicado por
Marcelo Flávio Gomes Jardim Filho

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