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médico de atenção primária conversando sobre prevenção ao suicídio

Setembro Amarelo: Como prevenir o suicídio na Atenção Primária à Saúde?

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O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que a pessoa acredite ser letal.

Existe também o comportamento suicida: desejo, pensamentos, ideações, planos e tentativas. É um fenômeno presente em todas as culturas em todas as épocas, com determinantes multifatoriais, envolvendo causas psicológicas, genéticas, culturais e socioambientais.

Suicídio e Atenção Primária

A Atenção Primária à Saúde (APS), como porta de entrada das pessoas ao sistema de saúde, deve ser capaz de identificar, abordar e manejar uma pessoa com comportamento suicida, além de trabalhar ativamente na prevenção.

A saúde mental é entendida como o resultado da interação de uma complexa série de fatores biológicos, psicológicos, familiares, espirituais e sociais. Entender amplamente a saúde mental é obrigatório para os profissionais que atuam na APS, por serem recurso daquela população, devido à alta prevalência de pessoas com este tipo de sofrimento. Deve ser abordada em todas as consultas, de forma longitudinal e em equipe. O método clínico centrado na pessoa (MCCP) contribui muito nesta avaliação e formação de vínculo.

São fatores de risco para o suicídio: tentativas prévias e doenças psiquiátricas associadas. Além disso, a OMS aponta três características psicopatológicas comuns no estado mental dos suicidas: ambivalência, impulsividade e rigidez.

Leia também: Setembro Amarelo: quais os efeitos da pandemia de Covid-19 na saúde mental?

O desejo de viver e de morrer oscilam no pensamento da pessoa, já que existe uma urgência em livrar-se da dor e do sofrimento. Em geral, o ato é motivado por eventos negativos, e, mesmo que o impulso dure um curto período, pode ser suficiente para findar com a vida. A rigidez nos fala sobre a falta de perspectiva ou outras soluções: o pensamento de morrer permanece como única saída possível.

Podemos resumir a abordagem ao suicídio em cinco etapas, descritas abaixo.

Primeira etapa: identificar sinais de alarme

A pessoa pode não citar diretamente o desejo de tirar a própria vida, porém, falas que remetam a desespero, desesperança, desamparo e depressão (os famosos “4 Ds”) devem ser exploradas, investigadas e levadas a sério. Acreditar que o mundo “será melhor sem sua existência”, vontade de “sumir” ou de “dormir e não acordar mais” merecem minuciosa investigação.

Segunda etapa: comunicar adequadamente

Além do MCCP, que nos permite ouvir ativamente, levando em consideração os medos, expectativas, anseios e necessidades da pessoa, é preciso, uma vez identificados os sinais de alarme da etapa 1, avaliar aspectos mentais. São eles:

  • Estado mental atual e pensamentos sobre morte e suicídio;
  • Plano suicida atual – se a pessoa tem um plano, se tem os recursos necessários para efetivar o ato e se ela pensa em quando irá fazê-lo;
  • Sistema de amparo social da pessoa – mapear pontos de apoio: familiares, amigos, cônjuge etc.

Falar a respeito de suicídio não coloca a ideia na cabeça das pessoas. Na verdade, trará alívio poder falar abertamente sobre os assuntos e questões com as quais estão se debatendo internamente, e, possibilitará reavaliar esse desejo e o plano, já que existe uma ambivalência nesta intenção. Exemplo de perguntas ativas que podem ser feitas durante a anamnese:

  • Você tem planos para o futuro?
  • Sua vida vale a pena ser vivida?
  • A morte para você seria bem-vinda?
  • Você tem pensado em se machucar, fazer mal a si mesmo ou pensado em morrer?
  • Você tem algum plano específico para tirar sua vida?
  • Você já fez alguma tentativa nos últimos tempos?

Veja também: Saúde mental de crianças e adolescentes associada a comportamentos de saúde

Terceira etapa: classificar o risco

Etapa necessária para definir a conduta. Lembrando que mesmo na classificação de “baixo risco”, trata-se de uma pessoa que deverá ser acompanhada de perto, de preferência por equipe multiprofissional, com um ecomapa destacando suas fortalezas e fragilidades.

  1. Baixo risco: pessoas com pensamentos suicidas e ideação de morte, porém sem ter um plano elaborado e uma data para efetivá-lo.
  2. Risco intermediário: a ideia de morrer começa a ficar mais estruturada e a pessoa faz planos de como irá executar – ainda sem uma data precisa. Nesta fase pode querer “organizar sua vida” para deixar “tudo acertado” para quem fica. Começa a resolver pendências, doar itens de valor, expressar sentimentos. Pode até parecer que a pessoa está melhorando, porém, essas ações devem ser vistas como um sinal de alarme.
  3. Alto risco: existe a ideação, o planejamento e a data para que o ato ocorra. É uma emergência psiquiátrica. Pode ter tentado suicídio recentemente e está apresentando rigidez quanto a uma nova tentativa ou mesmo realizou várias tentativas em um curto espaço de tempo.

Quarta etapa: conduzir corretamente

A etapa da conduta deve estar clara para todos os profissionais da APS, a fim de trazer segurança e cuidado para a pessoa em sofrimento.

Conduta no baixo risco: Realizar escuta ativa, fortalecer o vínculo, facilitar suporte e ajuda em seu contexto familiar e social. Faz-se necessário avaliar presença de transtorno psiquiátrico associado e instituir tratamento. Doenças comuns associadas ao comportamento suicida: depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtornos de personalidade (destaque ao borderline) e abuso de substâncias.

Conduta no risco intermediário: É preciso, além de acolher o sofrimento por meio de uma escuta terapêutica, realizar um contrato de não suicídio – esse pacto entre pessoa e profissional de saúde tem muito valor. Importante mapear os fatores de proteção e pedir permissão para entrar em contato com alguém da família, não para expor as particularidades do sofrimento, mas para garantir cuidado e vigia.

Podemos orientar sobre esconder armas, facas, cordas, medicamentos, não deixar a pessoa sozinha etc. Instituir tratamento para um possível transtorno psiquiátrico e, se necessário, encaminhar para um serviço de psiquiatria para avaliação e conduta.

Conduta no alto risco: A pessoa não poderá ficar sozinha nem por um minuto, nem para ir ao banheiro. Deve-se ficar 24h por dia vigiada, e, deve ser encaminhada imediatamente, via regulação, para um nível superior de atenção à saúde. Cuidar com meios de cometer suicídio mesmo dentro do serviço de saúde, no local do primeiro atendimento. O contrato de não suicídio pode ser útil neste caso também. Acionar a família.

Mais da autora: Cuidados paliativos na atenção primária à saúde

Quinta etapa: monitorar a pessoa por meio do trabalho em equipe

O cuidado não se encerra com o encaminhamento da pessoa. Ela deve ser acompanhada, acolhida e ter acesso garantido na APS sempre que necessário, já que é o nível de atenção que está mais próximo das pessoas.

O comprometimento da equipe pode fazer toda a diferença para a pessoa em cuidado. Por conhecer o território, a comunidade, as famílias e o contexto social, as possibilidades que a APS tem em amparar essa pessoa e sua família são imensos e devem ser aproveitados.

Conclusões

É essencial a educação permanente em saúde das equipes sobre este tema, devido sua gravidade, prevalência e potencial possibilidade de prevenção. Suicídio é uma questão de saúde pública e envolve famílias, gestores, equipes de saúde, escolas, igrejas, universidades, comunidade, mídia e políticas públicas.

E você, tem dificuldade na abordagem do suicídio na Atenção Primária à Saúde? Já atendeu algum caso de difícil manejo? Ficou com alguma dúvida? Conte para nós nos comentários!

Autora:

Referências bibliográficas:

  • Gusso G, Lopes JMC, Dias LC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade: Princípios, Formação e Prática. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Suicídio: informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP, 2014.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION et al. Prevenção do suicídio: Um manual para profissionais da saúde em atenção primária. Genebra: Suíça, 2000.

4 comentários

  1. Avatar
    Camila Stasiak

    Tema muito importante de ser discutido, Dra Beatriz!

  2. Avatar

    Excelente! Assunto muito importante!

  3. Avatar

    Assunto muito bem abordado! Muito relevante!

  4. Avatar
    Patrícia Rechetello

    Texto iluminador! Vou encaminhar pra toda a minha equipe, parabéns e obrigada!!!

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