Sintomas psicossociais negativos em pré-escolares associados ao tempo de tela

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Um estudo realizado na Finlândia e publicado no jornal BMJ Open concluiu que o tempo de tela das crianças finlandesas pré-escolares com idades entre 18 meses e 5 anos de idade aumentou de forma considerável e foi associado à ocorrência de hiperatividade e sintomas emocionais/internalizantes.

A mídia eletrônica (e-media) tem se tornado cada vez mais frequente no cotidiano de crianças pequenas: de 2013 a 2017, o uso de dispositivos móveis por crianças em idade pré-escolar triplicou. Pesquisas recentes demonstraram que uma grande proporção (81,3%) de crianças de 4 anos de idade jogam, usam aplicativos ou assistem a vídeos em dispositivos móveis diariamente. O uso intenso de e-media em crianças pequenas pode ser um fator de risco para prejuízos no desenvolvimento infantil. Pesquisas sugerem que o uso frequente pode interromper a interação pai-filho, causando problemas no desenvolvimento socioemocional, da linguagem ou de habilidades sociais, que são importantes para a saúde psicossocial da criança, podendo evoluir para um vício comportamental. Um estudo recente mostrou que, embora menos analisados entre crianças, os vícios comportamentais de internet ou de tela aparecem como solicitações persistentes de uma criança para acessar a e-media e tentativas malsucedidas dos pais de controlar o seu uso. Isso pode causar problemas com membros da família e levar à perda dos hobbies e de interesses prévios da criança. Parece que os pais não estão cientes dos riscos potenciais do uso intenso da mídia eletrônica para o bem-estar psicossocial de seus filhos. Estudos apontaram até que alguns pais usam dispositivos de mídia eletrônica como uma ferramenta para acalmar as crianças, especialmente quando ela tem dificuldades socioemocionais. Dessa forma, a ligação entre o uso de mídia eletrônica e sintomas psicossociais parece ser bidirecional.

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O tempo total de tela compreende a exibição de programas (televisão, por exemplo), bem como o uso de redes sociais, internet e jogos eletrônicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a recomendação é de, no máximo, 1 hora por dia para a faixa etária de 2 a 4 anos. No entanto, estudos mostram uma realidade bem diferente. Por exemplo, entre as crianças americanas de 2 a 4 anos, o tempo total médio de tela por dia é de 159 minutos. Já entre as crianças finlandesas de 3 a 6 anos, o tempo relatado na literatura é de 111 minutos.

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Frequência e riscos

O estudo publicado no BMJ Open investigou a frequência do uso e-media por crianças em idade pré-escolar e os riscos do uso frequente no bem-estar psicossocial desses indivíduos. Foram avaliados a relação entre o tempo de tela de alta dose (> 75º percentil) medido tanto aos 18 meses quanto aos 5 anos de idade e quaisquer problemas psicossociais associados aos 5 anos de idade. Os dados foram colhidos no período entre 2011 e 2017 na Finlândia. Os sintomas psicossociais das crianças foram determinados aos 5 anos de idade usando dois questionários respondidos pelos pais: o Five-to-Fifteen (FTF) e o Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ). Este estudo é parte de um projeto maior de coorte de nascimento longitudinal finlandês, denominado CHILD-SLEEP, e que inclui vários pontos de medição.

Seiscentas e noventa e nove crianças participaram do estudo. Destas, 52% eram do sexo masculino, 63% tinham pelo menos um dos pais com diploma universitário e 68% estavam em creche em tempo integral. O tempo médio de tela total relatado pelos pais aos 18 meses de idade foi de 32 minutos. Tempo de tela acima da referência de 60 minutos foi observado em 23% das crianças. Aos 5 anos de idade, o tempo médio total de tela dessas mesmas crianças aumentou para 114 minutos. Os resultados indicam que 95% das crianças em idade pré-escolar excederam o uso diário recomendado de e-media definido por profissionais de saúde. Os pesquisadores descreveram que o aumento do tempo de tela aos 5 anos de idade está associado a um risco de múltiplos sintomas psicossociais (odds ratio [OR] 1,53-2,18, intervalo de confiança de 95% [IC95%] 1,05-3,34, p < 0,05), enquanto níveis aumentados de uso de e-media aos 18 meses foi associado apenas a problemas com os colegas de acordo com o questionário FTF (OR 1,59, IC 95% 1,04-2,41, p = 0,03). Além disso, o uso de altas doses de jogos eletrônicos aos 5 anos parece estar associado a menos riscos para o bem-estar psicossocial do que assistir a programas, uma vez que foi associado apenas à hiperatividade, segundo o questionário SDQ (OR 1,65, IC 95% 1,08-2,51, p = 0,02).

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Um ponto forte do estudo é o cenário longitudinal e a medição repetida da exposição de e-media. Além disso, a amostra é baseada em uma coorte representativa de nascimentos recrutada durante a gravidez. Uma limitação, no entanto, é a medição do uso da e-media, que foi baseada em questionários respondidos pelos pais e não em registros. Ademais, as mães solteiras, bem como as de menor escolaridade, parecem estar sub-representadas na amostra. Todavia, essa pesquisa demonstra claramente que os padrões de uso de mídia eletrônica por crianças estão mudando rapidamente, descrevendo resultados sobre as associações de e-media por crianças pequenas com seu bem-estar psicossocial baseados em dados recentes.

Mensagem final

Portanto, esse estudo mostra os riscos associados a altos níveis de uso de e-media por crianças pequenas: as crianças de 5 anos passam muito mais tempo na mídia eletrônica do que o recomendado pelos profissionais. Os pesquisadores ressaltam que o desenvolvimento socioemocional das crianças é influenciado por fatores ambientais, incluindo hábitos de mídia eletrônica. Embora os padrões possam não parecer problemáticos quando se considera o uso diário, eles apresentam riscos em longo prazo. Assim, os profissionais de saúde desempenham um papel fundamental no fornecimento de informações aos pais sobre o uso seguro de dispositivos de mídia eletrônica em crianças pequenas, a fim de proteger seu desenvolvimento saudável.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Niiranen J, Kiviruusu O, Vornanen R, Saarenpää-Heikkilä O, Paavonen EJ. High-dose electronic media use in five-year-olds and its association with their psychosocial symptoms: a cohort study. BMJ Open. 2021;11(3):e040848. Published 2021 Mar 17. doi:10.1136/bmjopen-2020-040848
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