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médico prescrevendo secuquinumabe para doença de Behçet

Uso do secuquinumabe no tratamento da doença de Behçet mucosa e/ou articular refratária

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A doença de Behçet (DB) é uma vasculite sistêmica com quadro clínico amplamente diverso, podendo se manifestar como úlceras orais/genitais, lesões cutâneas (pseudofoliculite, eritema nodoso), artrite, acometimento ocular (desde uveíte anterior até panuveíte com vasculite retiniana), acometimento neurológico, tromboses vasculares em qualquer leito, entre outros.

Acredita-se que o envolvimento de diferentes mecanismos fisiopatogênicos possa explicar os diferentes fenótipos apresentados pelos pacientes. Nesse contexto, baseados em algumas semelhanças observadas entre o fenótipo mucoso/artricular da DB e as espondiloartrites, os autores desse paper em questão acreditam que o envolvimento da via Th17 seja importante e desenvolveram esse estudo multicêntrico para avaliar o papel do secuquinumabe (SCQ – inibidor da IL-17A) no tratamento dos casos refratários da DB mucosa/articular.

Tratamento padrão atual

Antes de entrarmos nos dados do artigo, vamos recordar brevemente quais são as medicações atualmente utilizadas no tratamento da DB.

Segundo os guidelines da EULAR de 2018, a colchicina é a primeira linha de tratamento, tanto para as manifestações mucosas quanto para as articulares. Na falha da colchicina, temos as seguintes opções: para manifestações mucosas, as recomendações atuais sugerem o uso de azatioprina, talidomida, anti-TNF, apremilaste ou interferon-alfa; já para as manifestações articulares, os medicamentos de segunda linha indicados são azatioprina, anti-TNF e interferon-alfa.

Secuquinumabe na doença de Behçet

Trata-se de um estudo multicêntrico retrospectivo para avaliar a eficácia a longo prazo do SCQ no tratamento de pacientes com DB e úlceras mucosas e/ou artrite refratárias à terapia padrão.

Todos os pacientes preencheram os critérios classificatórios do ICBD. Para que o paciente entrasse no estudo, era necessário que ele fosse refratário ao uso de colchicina, DMARD e, pelo menos, um anti-TNF. Além disso, o paciente deveria ter apresentado pelo menos 2 episódios de úlceras orais 28 dias antes do início da medicação e DAS-28 >2,6 no momento do seu início.

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Com relação às doses do SCQ, pacientes com quadros poliarticulares (≥5 articulações) receberam 300 mg mensalmente, enquanto que os demais receberam 150 mg. Se o paciente estivesse com controle ruim, a dose de 150 mg poderia ser aumentada para 300 mg por mês. A frequência das aplicações também poderia ser aumentada se o paciente experimentasse efeito de fim-de-dose (quando surgem sintomas próximos da aplicação seguinte).

Corticoides, colchicina e DMARDs foram mantidos quando necessário. Nenhum paciente estava em uso de anti-TNF no momento de início do SCQ.

O follow-up mínimo estipulado foi de seis meses, mas dados foram coletados até 24 meses. Assim, os pacientes eram avaliados nos meses 3, 6, 12, 18 e 24.

Os desfechos foram avaliados da seguinte maneira: resposta completa se refere à ausência de úlceras orais e DAS-28 ≤2,6; resposta parcial, redução em mais de 50% no número de úlceras orais e DAS entre 2,6 e 3,2 (inclusive); não respondedores, aqueles que não atingiram resposta completa nem parcial; recorrência, mudança de resposta completa para parcial ou ausência de resposta, ou resposta parcial para ausência de resposta; e, por fim, remissão clínica sustentada, pelo menos seis meses de resposta contínua (tanto completa quanto parcial).

Resultados

Dos 19 pacientes que fizeram uso de SCQ, apenas 15 tiveram critérios de elegibilidade. A maioria era do sexo feminino (86,7%) e a mediana de idade foi 51,4 anos. Diferentes tipos de DMARDs foram utilizados previamente. Dentre as manifestações mais graves da DB, apenas um tinha manifestações neurológicas e apenas um, oculares em atividade. Nenhum paciente tinha sintomas vasculares ativos. Além disso, 60% estavam em uso de corticoide.

No terceiro mês, 2/3 dos pacientes apresentaram resposta parcial ou completa da doença, que aumentou progressivamente ao longo do tempo de seguimento.

Treze pacientes foram seguidos por mais de seis meses, com 84,6% de remissão clínica sustentada, sendo que 54,5% deles não estavam mais em uso de corticoide; o cinco pacientes restantes (45,5%) estavam usando apenas 5 mg de prednisona.

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Dos dez pacientes com mais de 12 meses de seguimento, 90% se mantinham com resposta ininterrupta.

A resposta foi relativamente rápida tanto para o domínio mucoso quanto para o articular, com reduções significativas do número de úlceras orais e do DAS-28 a partir da primeira avaliação, aos três meses após início da medicação.

Durante o período de seguimento, nove pacientes apresentaram recorrências, dois com 150 mg (que resolveram aumentando a dose para 300 mg por mês) e sete com 300 mg (2 com remissão espontânea durante o seguimento e 1 com remissão completa após associação com metotrexato; não foram apresentados dados dos 4 restantes).

Com relação às demais manifestações, os autores relatam que o SCQ também foi eficaz na melhora de manifestações axiais, gastrointestinais e úlceras genitais. O BDCAF, escore que avalia a atividade global de doença na DB, também reduziu no seguimento.

Apenas um paciente descontinuou a medicação por falta de eficácia após 12 meses. Dois pacientes apresentaram infecções fúngicas superficiais (candidíase mucocutânea), um evento adverso esperado com o uso do SCQ.

Comentários

O estudo acima apresentado, além de pequeno, possui diversas outras limitações metodológicas, como o desenho retrospectivo, falta de controles, ausência de randomização, entre outros.

No entanto, ele é importante no sentido de demonstrar um potencial papel do SCQ no tratamento da DB. Sabemos que uma parcela dos pacientes com a DB não apresentam controle satisfatório da doença com a terapia atual e, por isso, novos tratamentos são necessários para esses casos. Esse é o primeiro trabalho descritivo que fornece dados que possam indicar que o SCQ é um potencial candidato para os casos refratários a múltiplas terapias.

Vale destacar, por fim, que os pacientes selecionados para essa estudo foram aqueles com manifestações mucosas e articulares refratárias à colchicina, DMARDs e, pelo menos, um anti-TNF. Dessa forma, não é possível extrapolar os dados aqui encontrados para a população geral de pacientes com DB.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Fangi F, Bettiol A, Talarico R, et al. Long-term effectiveness and safety of secukinumab for treatment of refractory mucosal and articular Behçet’s phenotype: a multicentre study. Ann Rheum Dis. 2020;doi:10.1136/annrheumdis-2020-217108.
  • Hatemi G, Christensen R, Bang D, et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of Behçet’s syndrome. Ann Rheum Dis. 2018;77:808-18.

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