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médico segurando um exame de sangue

Você sabe o impacto de um “simples” hemograma?

Tempo de leitura: 2 minutos.

Quem nunca em um dia de atendimento recebeu um paciente solicitando um hemograma? A ideia de que o famoso hemograma COMPLETO pode ser o grande responsável pelo cuidado de sua saúde é frequente na maioria da população. E, infelizmente, isso acaba sendo reforçado quando o médico responsável pelo seu cuidado acaba solicitando o exame de forma desnecessária.

Você lembra a última vez que solicitou um hemograma completo com alguma indicação clínica? Se você demorou mais de 10 segundos para pensar nessa resposta, você faz parte da grande maioria dos médicos que solicitam os famosos exame de rotina e acabam não se dando conta do grande impacto que isso pode gerar.

O hemograma completo é apenas um exemplo de alguns exames que solicitamos, na maioria das vezes, de forma desnecessária e que geram grande impacto no adoecimento e aumentam os custos de saúde para a população. Quem nunca atendeu uma pessoa adulta que vem fazer o seu hemograma anual pois quando era criança sua mãe disse que teve uma anemia severa? Sim, era um simples hemograma, mas relembrando o conceito da prevenção quaternária, essa pessoa não apresenta necessariamente uma doença, mas sente-se doente e necessita a repetição do exame com grande frequência.

– Mas só um hemograma? Esse exame é muito barato!

Sim, sem dúvida o custo individual do hemograma não é nada exorbitante. Mas se pensarmos que esse exame entra na maioria das solicitações dos famosos exames de rotina esse custo começa a aumentar, e muito. Vamos pegar o exemplo da hipertensão arterial sistêmica (HAS). Apesar da maioria das diretrizes não indicarem tal exame ele continua sendo solicitado por muitos médicos. Considerando uma prevalência de 25,7% de hipertensos no Brasil, segundo os dados do Vigitel de 2016, e o custo de 4,11 reais, pela tabela de procedimentos do SUS para cada hemograma, se cada hipertenso realizar esse exame anualmente isso gera um custo perto de 150 milhões de reais.

Com esse valor seria possível a implementação de unidades de atenção primária que teriam a cobertura de uma população de mais de 1 milhão de pessoas. Pois sim, aquele simples hemograma do início do texto além de gerar adoecimento para a população produz um incrível e desnecessário custo para o sistema.

Esse exemplo foi baseado apenas no hemograma solicitado para pessoas com HAS. Se esse mesmo cálculo fosse extrapolado para outros exames que solicitamos sem indicação clínica esse custo aumentaria em grandes proporções. Esses custos geram uma grande sobrecarga não apenas para o SUS, mas também para o setor complementar que sofre muito com o modismo do check up, que gera cada vez mais adoecimento e carece de evidências científicas fortes para a sua prática.

Portanto, cabe ao médico a decisão pelo uso racional e cuidadoso na indicação de exames. Lembrando sempre que esses são complementares à avaliação clínica e que podem gerar sobrediagnósticos, sobretratamentos, adoecimentos e custos desnecessários.

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Autor:

Referências:

  • Malachias MVB, Souza WKSB, Plavnik FL, Rodrigues CIS, Brandão AA, Neves MFT, et al. 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol 2016; 107(3Supl.3):1-83

2 Comentários

  1. Marcelo de Castro Lima

    Importante esse artigo. Infelizmente é bem difícil conseguir convencer a população na prática. Principalmente se for setor privado. Quantas e quantas vezes não nos deparamos com o “simples raio x de tórax” e outros tantos simples…

    Creio que devemos fazer um trabalho árduo de conscientização da população

  2. Dr Wilson Teixeira

    Olá, sou o Dr. Wilson, muito bom seu comentário a cerca da solicitação de exames desnecessariamente, mas não vamos esquecer Dr que infelismente usamos de uma medicina puramente curativa e não preventiva como deveria ser. Pedir exames de rotina podem trazer muitos gastos para o SUS, mas com certeza esses gastos se tornam insignificantes perto dos gastos perdidos com internações, cirurgias, recuperações e óbitos que esperimentariamos sem a observação preventiva que nos oferece os exames de rotina.

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