Cefaleia e Covid-19: Qual a relação?

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Sobre a doença causada pelo novo coronavírus, a Covid-19, há muitas perguntas a serem respondidas. Entre elas, a extensão e o mecanismo de seu acometimento neurológico.

Presença de cefaleia em casos de Covid-19

Diversas manifestações neurológicas já foram relacionadas a Covid-19. Algumas delas, como acidente vascular cerebral e encefalite, já foram abordados em nosso site. Outra manifestação que frequentemente figura em discussões entre neurologistas sobre a doença é a cefaleia. Esses diálogos dão conta de que quadros de cefaleia de início recente, prolongados e refratários à medicação são observados em pacientes com diagnóstico de Covid-19. E ainda, seus interlocutores destacam que sua presença pode se dar associada a febre e queixas respiratórias ou até isoladamente.

Sobre esse tema, a revista Headache, representativa da Sociedade Americana de Cefaleia, publicou no mês de maio artigo que trata da associação entre cefaleia e Covid-19. São discutidos aspectos clínicos da cefaleia nesses pacientes, exemplificados por 2 casos, e aventados seus possíveis mecanismos fisiopatológicos.

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Abaixo, destaco alguns tópicos abordados.

Características da cefaleia.

É apontada no texto a falta de detalhamento dos quadros de cefaleia nos estudos consultados. Em dado momento, os autores comentam sobre sua própria experiência e caracterizam o quadro de cefaleia apresentado por seus pacientes com Covid-19 como: bilateral; pulsátil ou em pressão; exacerbada quando o paciente inclina-se para frente; de localização temporoparietal, frontal, periorbital ou sobre os seios paranasais; com início súbito ou gradual; resistente à analgésicos; com alta taxa de recidivas, porém limitada à fase ativa da Covid-19. A associação com outros sintomas de Covid-19 também é incerta, não sendo possível excluir a doença quando a cefaleia não estiver acompanhada de queixas mais típicas.

Frequência de cefaleia.

Nos estudos elencados pelos autores a presença de cefaleia foi de 2,8 e 71,1%. Tamanha variação deve-se a diferenças entre os grupos avaliados em cada um desses estudos. Na própria experiência dos autores com pacientes sintomáticos com Covid-19 a frequência é de 10%.

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Mecanismo de geração de cefaleia.

Uma vez que a presença de SARS-CoV-2 no sistema nervoso central usualmente não é confirmada, não sendo possível falar em meningite ou encefalite, suscita-se a consideração quanto a trata-se de cefaleia associada à infecção sistêmica. Também não teria sido reportado, até o momento da publicação, a associação entre Covid-19 e cefaleias primárias, como a enxaqueca. Assim, a dor, nos casos de Covid-19, poderia ocorrer mesmo em pacientes sem história prévia de cefaleia. Os mecanismos fisiopatológicos aventados pelos autores para explicar a ocorrência de cefaleia em pacientes com Covid-19 incluem: invasão direta das terminações do nervo trigêmeo na cavidade nasal pelo SARS-CoV-2; comprometimento inflamatório do endotélio vascular associado ao SARS-CoV-2 levando à ativação de fibras do nervo trigeminal; e a liberação de mediadores e citocinas pro-inflamatórias capazes de ativar terminações trigeminais perivasculares durante a infecção. No entanto, todas as hipóteses carecem de confirmação definitiva.

Contribuição da cefaleia para a Covid-19. E vice-versa.

A contribuição que o conhecimento no campo de cefaleia pode dar para a compreensão da ação do SARS-Cov-2 no organismo é incerta. Assim como também é incerta a contribuição que o entendimento da cefaleia na Covid-19 pode promover para o entendimento das cefaleias primárias ou desencadeadas por agentes virais de maneira geral como sugerem os autores ao final do artigo.

Apesar de não ter as respostas para as perguntas que se propõe a fazer, o artigo chama a atenção para o reconhecimento da cefaleia como sintoma de Covid-19. Isso é de grande valor, pois permite, por exemplo, aprimorar os protocolos de triagem de casos suspeitos contribuindo para a identificação de pacientes, em espacial daqueles nos quais predominam sintomas atípico.

Mensagem final

Por fim, não nos esqueçamos que se trata de uma doença nova. E isso torna necessário suspeitar, investigar e documentar, quanto mais detalhado for possível, sintomas, sinais e resultados complementares. Somente após a análise de tais informações é que poderemos, talvez, começar a produzir respostas.

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Referências bibliográficas:

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