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Coinfecção com HCV em pacientes com HIV

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A coinfecção com HCV é uma condição frequente em pessoas que convivem com o vírus do HIV. Estima-se que, das 36,7 milhões de pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo, 2,3 milhões tenham evidência sorológica de infecção por HCV passada ou atual.

Leia também: Coquetel de medicamentos eliminou o vírus do HIV em paciente, aponta estudo

Representação gráfica de coinfecção por HCV em pacientes com HIV

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HCV e HIV

É conhecido que individualmente cada infecção está associada a maior risco de desenvolvimento de morbidades clínicas em relação à população geral. A infecção por HIV, por exemplo, está associada a maior incidência de doenças cardiovasculares, neoplasias não definidoras de AIDS e disfunção hepática terminal. Por sua vez, a infecção por HCV está associada ao aumento na incidência de doença hepática terminal, carcinomas hepatocelulares e algumas neoplasias. Entretanto, pouco se sabe o impacto da coinfecção dos dois vírus no desenvolvimento de comorbidades a longo prazo.

Um estudo com uma grande coorte europeia de indivíduos com infecção por HIV procurou avaliar os desfechos clínicos de acordo com o status de infecção por HCV: HCV-negativos, cura espontânea, HCV crônico não tratado, cura após tratamento ou falha de tratamento. Os resultados foram publicados na Clinical Infectious Diseases.

Materiais e métodos

Os dados foram provenientes de uma coorte de um estudo prospectivo observacional com quase 23.000 pacientes infectados pelo vírus HIV-1 vivendo em 35 países europeus, Israel e Argentina. Todos os indivíduos que entraram na coorte a partir de 2001 e que tinham status conhecido para HCV eram elegíveis para o estudo. Pacientes com menos de 16 anos ou sem exames de carga viral do HIV ou de contagem de células CD4 foram excluídos.

Em relação ao status de infecção pelo HCV, os participantes foram separados em cinco grupos de acordo com os resultados sorológicos e história de tratamento para HCV:

  1. anti-HCV negativo
  2. cura espontânea: anti-HCV positivo, HCV-RNA negativo, sem história de tratamento
  3. infecção crônica: anti-HCV positivo, HCV-RNA positivo, sem história de tratamento
  4. cura após tratamento: anti-HCV positivo, HCV-RNA negativo, com tratamento
  5. falha ao tratamento: anti-HCV positivo, HCV-RNA positivo, com tratamento

Os participantes incluídos foram seguidos por 7 anos ou até sua morte ou desenvolvimento de desfecho clínico cardiovascular, neoplásico ou hepático, incluindo IAM, AVC, necessidade de procedimento coronariano invasivo, ascite, encefalopatia hepática, PBE, hepatocarcinoma celular, entre outros.

Saiba mais: Metas globais de HIV para 2020 não serão alcançadas, aponta relatório do UNAIDS

Resultados

Dos pacientes incluídos na coorte, 16.818 foram incluídos no estudo, sendo que 62% pertenciam ao grupo que era anti-HCV negativo. A maioria eram homens, brancos, já expostos à terapia antirretroviral e tabagistas. A média de idade foi de 41 anos e a média de CD4 foi de 438, configurando uma coorte jovem e sem imunossupressão grave. Dos pacientes com história de tratamento por HCV, a maioria recebeu ribavirina e interferon.

Em relação aos desfechos clínicos, não houve diferença no desenvolvimento de eventos cardiovasculares entre os diferentes status de infecção por HCV. A neoplasia não-definidora de AIDS mais comumente encontrada foi câncer anal, seguido de câncer de pulmão. Quase todos os casos de câncer de próstata foram observados na população anti-HCV. Eventos relacionados a comprometimento hepático foram significativamente mais frequentes na população infectada por HCV (p = 0,0029). Interessante notar que dos 100 eventos relacionados à doença hepática terminal que ocorreram em pacientes com anti-HCV negativo, 37 (3,7%) foram em pacientes HBsAg positivos.

Já a análise das taxas de incidência mostrou certa diferença entre os grupos para o desenvolvimento de eventos cardiovasculares, com a menor taxa de incidência nos pacientes com HCV crônico não tratado e a maior nos que tiveram cura espontânea. Os autores, entretanto, consideram que o de infecção pelo HCV não teve efeito sobre o risco de desenvolvimento desse tipo de desfecho.  Não houve diferença em relação ao desenvolvimento de neoplasias não-definidoras de AIDS (p = 0,32). A incidência de doença hepática terminal foi baixa nos pacientes com infecção crônica e maior nos com falha ao tratamento.

Mensagens práticas

Nesse estudo, o status de infecção pelo HCV não teve efeito sobre o risco de desenvolvimento de eventos cardiovasculares e neoplasias não-definidoras de AIDS em indivíduos infectados pelo HIV. Por outro lado, coinfecção HIV/HCV esteve relacionada ao desenvolvimento de eventos clínicos associados à doença hepática terminal.

Não houve diferença entre os desfechos estudados e o tipo de tratamento para HCV utilizado (ribavirina + interferon vs. agentes de ação direta). Apesar do estudo não ter poder estatístico o suficiente para detectar esse tipo de diferença, a análise dos dados sugere que possíveis diferenças seriam pequenas.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Mocroft A, et al. Clinical Outcomes in Persons Coinfected With Human Immunodeficiency Virus and Hepatitis C Virus: Impact of Hepatitis C Virus Treatment. Clinical Infectious Diseases 2020;70(10):2131–40 DOI: 10.1093/cid/ciz601
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