Terapia Intensiva

Os prejuízos do excesso de sódio no ambiente intra-hospitalar

Tempo de leitura: 3 min.

Uma terapia endovenosa não é completamente livre de malefícios. O maior exemplo dentre os possíveis danos que podem ser causados é a sobrecarga de fluidos. Mas além da quantidade de fluidos administrados existe um grande problema que é frequentemente negligenciado: o excesso de sódio.

Sem dúvida, a maior carga de sódio provém da fluidoterapia de manutenção; contudo, não podemos nos esquecer da quantidade abundante de fluidos que são administrados juntamente com medicações ou daqueles pequenos volumes que servem para manter o acesso venoso pérvio. Uma revisão publicada no Annals of Intensive Care aborda os diferentes aspectos desse tema.

Leia também: ATS 2021: infecções fúngicas em ambiente intra-hospitalar

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Hospitais são ambientes “ricos em sódio”

Uma dieta equilibrada deve ter cerca de 2,3 g (100 mmol) por dia de sódio associada a um consumo de cerca de 2-2,5L de água. Isso resulta em uma relação de cerca de 40-50 mmol/L entre o íon e a água. Essa relação é facilmente ultrapassada em um ambiente intra-hospitalar. Por exemplo, a quantidade de sódio que 2 L de Ringer Lactato contém supera a quantidade média de sódio consumida por dia do país com o maior consumo de sódio do mundo, segundo o estudo.

Efeitos fisiológicos

Quando expostos a uma sobrecarga abrupta de sódio os rins não são capazes de excretar o íon de maneira tão eficiente. Ocorre uma demora para o néfron excretar esse excesso. Isso provoca uma maior retenção de líquidos, levando a uma sobrecarga de volume que pode demorar dias para ser equilibrada mesmo após um balanço adequado de sódio.

Além disso, o processo de retenção de água demanda uma grande quantidade de energia. Para manter o equilíbrio osmótico é necessário aumentar a quantidade de volume e — contra intuitivamente — isso não ocorre principalmente através da ingestão de líquidos por via oral (estimulados pela sede). O principal mecanismo endógeno é através do próprio rim concentrando a urina. Quanto mais água ele retém, mais concentrada a urina fica e mais e mais energia foi gasta durante esse processo.

Quando o limite de 250-300 mmol/L de sódio é atingido, os rins necessitam de uma ingestão adicional de água para conseguir aumentar o volume de urina e excretar o excesso de sódio. Contudo, o acesso limitado à água por via oral é uma condição comum de muitos pacientes hospitalizados e essa restrição dificulta ainda mais o balanço hidroeletrolítico adequado.

Consequências clínicas

Por mais que seja difícil de quantificar precisamente os efeitos deletérios provocados por esse íon, é sabido que fluidos ricos em sódio levam a um aumento na retenção hídrica do paciente e segundo os artigos analisados no estudo isso pode gerar graves consequências como o aumento da morbidade perioperatória e a piora dos parâmetros respiratórios em pacientes em ventilação mecânica, por exemplo.

Possíveis soluções

O texto conclui com algumas recomendações para evitarmos iatrogenias. Inicialmente deve-se dissolver as medicações que forem possíveis em soro glicosado. Essa atitude sozinha já provoca uma intensa redução na carga de sódio ofertada. O uso de cloreto de sódio como solvente é obrigatório para pouquíssimas medicações e o ato de diluir as drogas principalmente com ele é meramente um hábito.

Saiba mais: Revisão do manejo intra-hospitalar de AVC a partir do novo guideline

Não podemos esquecer que a quantidade necessária de água e eletrólitos deve ser preferencialmente administrada por via oral ou enteral, se for possível. O soro de manutenção deve ser prescrito somente se necessário e de preferência deve ter uma carga baixa de sódio. Sendo bem indicado, serve para cobrir as necessidades diárias de água e eletrólitos do paciente.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Van Regenmortel N, Moers L, Langer T, et al. Fluid-induced harm in the hospital: look beyond volume and start considering sodium. From physiology towards recommendations for daily practice in hospitalized adults. Ann. Intensive Care. 2021;11(79). doi: 10.1186/s13613-021-00851-3
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Publicado por
André Aranda

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