Página Principal > Colunistas > Penicilina G benzatina em falta! O que escolher agora?
injecao com ampolas

Penicilina G benzatina em falta! O que escolher agora?

Tempo de leitura: 5 minutos.

A penicilina G benzatina (Benzetacil®, Bepeben®, FURP-Benzilpenicilina Benzatina®, Biozatin®), um dos antimicrobianos mais antigos em uso para tratamento de doenças infecciosas por mais de 50 anos, está em falta no mercado brasileiro.

Em desabastecimento intermitentemente nas prateleiras das farmácias brasileiras há três anos, agora esse antibiótico tem sua produção suspensa temporariamente no país a partir de final de julho de 2017, conforme informou a empresa Eurofarma, a qual detém oficialmente a marca Benzetacil®.

As justificativas incluem “melhoramento do processo de validação” dos produtos. A previsão é de retorno da produção a partir de Outubro de 2017. A produção é limitada a poucos laboratório que produzem em pequena quantidade devido a ausência de patente e pouco lucro (uma dose custa menos do que R$2,00). O mesmo problema tem se repetido em outros países.

Dentre outras justificativas mencionadas pelo Ministério da Saúde (MS) inclue-se a falta de matéria-prima produzida na China e Índia. E somente recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou a dispensa de registro da matéria-prima para a produção em território nacional.

Além de ser a primeira linha de tratamento contra a sífilis, a penicilina G benzatina é considerada alternativa terapêutica para alguns casos de doenças como infecções de pele e partes moles, erisipela, pneumonia, meningite. Porém, para a neurossífilis, a droga é considerada como único tratamento eficaz. Adicionalmente, como será possível o controle da atual epidemia de sífilis no país? Como resolver esse problema, então?

O tratamento de escolha eficaz para a sífilis é a penicilina G benzatina via intramuscular (IM) baseado no estágio da doença. Existe alternativas terapêuticas porém são citadas como apresentando menor eficácia. Seguem abaixo as recomendações atualizadas:

Tratamento de adultos, incluindo gestantes:

a) Sífilis primária, secundária e latente precoce – Penicilina G benzatina 2,4 milhões UI (1,2 milhão UI em cada glúteo) via IM, dose única.
Opções: Doxiciclina 100 mg via oral (VO) 12/12 horas por 14 dias (exceto para gestantes); Ceftriaxona 1 a 2 g via IM ou endovenosa (EV) 24/24h por 10 a 14 dias; Tetraciclina 500 mg VO 6/6 horas por 14 dias (exceto para gestantes); ou Amoxicilina 3 g mais probenicida 500 mg VO 12/12 horas por 14 dias. O exame clínico e sorológico com teste não treponêmico devem ser realizados 6 e 12 meses após tratamento.

b) Sífilis tardia ou latente tardia – Penicilina G benzatina 2,4 milhões UI via IM (1,2 milhão UI em cada glúteo) 1x em cada semana (total de 3 semanas).
Opções: Doxiciclina 100 mg VO 12/12 horas por 4 semanas (exceto para gestantes); Ceftriaxona 2 g via IM ou EV 24/24h por 10 a 14 dias. O exame clínico e sorológico com teste não treponêmico devem ser realizados 6, 12 e 24 meses após tratamento.

c) Neurosífilis – Penicilina G 3 a 4 milhões UI EV 6/6 horas (ou 18 a 24 milhões UI por infusão contínua) por 10 a 14 dias; geralmente seguida de dose única de Penicilina G benzatina 2,4 milhões UI via IM (1,2 milhão UI em cada glúteo).
Opções: Penicilina G procaína 2,4 milhões UI IM 24/24 horas mais probenicida 500 mg VO 6/6 horas por 10 a 14 dias; Ceftriaxona 2 g EV 24/24h por 10 a 14 dias; Amoxicilina 3 g mais probenicida 500 mg VO 12/12 horas por 14 dias; ou doxiciclina 200 mg VO 12/12 horas por 21 dias. Porém as duas últimas opções devem ser utilizadas somente para circunstâncias excepcionais devido a raras evidências que favoreçam seu uso como boas opções terapêuticas. O exame clínico-neurológico (incluindo punção lombar) e sorológico com teste não treponêmico devem ser realizados a cada 3 a 6 meses após tratamento, até atingir contagem de leucócitos e VDRL negativo no liquor.

OBS1: pacientes alérgicos a penicilina devem ser submetidos ao protocolo de dessensibilização no intuito de viabilizar o uso desse antimicrobiano.

OBS2: os protocolos podem variar de acordo com o país devido a variações quanto a disponibilidade ou registro de drogas. O Ministério da Saúde do Brasil não recomenda os esquemas com Tetraciclina ou Amoxicilina.

Tratamento de sífilis congênita para recém-nascidos (RN) de mães com sífilis não tratadas adequadamente independente do teste não treponêmico ou RN com sangue periférico com VDRL positivo de mães tratadas adequadamente:

a) Esquema A1 para alterações clínicas, imunológicas, radiológicas e/ou hematológicas – Penicilina cristalina 50.000 UI/kg/dose EV 12/12 horas nos primeiros 7 dias de vida) e a cada 8/8 horas após 7 dias de vida por 10 dias; ou penicilina G procaína 50.000 UI/kg IM 24/24h por 10 dias.

b) Esquema A2 para presença de alteração liquórica – Penicilina cristalina 50.000 UI/kg/dose EV 12/12 horas nos primeiros 7 dias de vida e a cada 8/8 horas após 7 dias de vida por 10 dias.

c) Esquema A3 para ausência de alterações clínicas, radiológicas, hematológicas e/ou liquóricas, e teste não treponêmico não reagente – Penicilina G benzatina 50.000 UI/kg IM.

Tratamento de sífilis congênita para RN assintomático e VDRL negativo nascido de mães tratadas adequadamente:

d) Esquema A3 para ausência de alterações clínicas, radiológicas, hematológicas e/ou liquóricas, e teste não treponêmico não reagente, e em caso de impossibilidade de seguimento clínico-ambulatorial – Penicilina G benzatina 50.000 UI/kg IM.

Informações adicionais sobre a sífilis:

A sífilis, doença de notificação compulsória causada pela bactéria Treponema pallidum, pode ser adquirida por relação sexual sem preservativos ou contato com feridas (transmissão horizontal), ou ser de origem congênita, quando a gestante transmite para o feto via uterina (transmissão vertical) com 70 a 100% de probabilidade.

Atualmente vivenciamos uma epidemia de sífilis no país. Os casos aumentam progressivamente em cada ano, o que pode estar relacionado com o comportamento sexual sem uso de proteção, escassez de medicação e despreparo de profissionais de saúde. Em 2015, por exemplo, foram 65.000 casos, um aumento em torno de 32%, sendo que 33.365 gestantes foram diagnosticada com a doença no país, 19.228 bebês nascidos vivos apresentavam sífilis congênita, incluindo formas graves como neurosífilis, com 221 óbitos e inúmeras sequelas entre os sobreviventes como déficit cognitivo, auditivo, visual, demência, más formações e outros. Estima-se que o aumento pode ter atingido 5.000% nos últimos cinco anos.

Após o contágio pelo(a) parceiro(a) infectado(a), a doença inicial se manifesta como uma ferida ulcerada pequena indolor na boca ou genitália no sítio de penetração da bactéria, que desaparece espontaneamente em poucos dias ou semanas. Posteriormente, após 4-6 semanas do contato ou meses, surge um quadro clínico extenso com erupções maculosas por todo o corpo, lesões palmo-plantares com escamações, lesões papulo-hipertóficas nas mucosas ou pregas cutâneas, alopécia e sintomas inespecíficos, que podem mimetizar alergias, farmacodermias ou outros, podendo seguir para uma fase latente assintomática ou subclínica.

Sem diagnóstico ou tratamento, a doença pode seguir para a fase tardia (2 a 40 anos após contágio) caracterizada por manifestações cardiovasculares ou doença granulomatosa em pele, tecido subcutâneo, ósseo ou visceral. As manifestações neurológicas graves incluindo alteração auditiva, alteração visual com uveíte, retinite e neuropatia ótica, alteração em nervo facial, poliradiculopatia, isquemia encefálica, meningite focal a difusa, meningomielite, disartrias, hipotonias, convulsões, paresia difusa como sinal de demência progressiva e outros sinais demenciais, tabes dorsalis (ataxia locomotora e dores lancinantes) são conhecidas como neurossífilis.

Mais do autor: ‘Gonorreia agora resistente a antibióticos, não mais banalizada’

Autor:

Referências:

  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para atenção integral às pessoas com infecções sexualmente transmissíveis. 2015. Pág. 89 a 110.
  • Clement ME, Okeke NL, Hicks CB. Treatment of syphilis: a systematic review. 2014. JAMA, 312: 1905-1917.
  • Workowski KA, Bolan GA,. Centers for Diseases Control and Prevention. Sexually transmitted diseases treatment guidelines. 2015. MMWR Recomm. Rep. 64 (RR-03):1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.