ECCMID 2021: Candida auris – qual sua importância epidemiológica?

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Devido à sua facilidade de disseminação e ao seu padrão de resistência, a identificação de Candida auris em ambientes hospitalares tornou-se uma preocupação em todo o mundo. No Brasil, é um organismo de notificação obrigatória à Anvisa.

Por sua importância no contexto dos cuidados com a saúde, o European Congress of Clinical Microbiology & Infectious Diseases (ECCMID 2021) dedicou algumas apresentações para discutir aspectos desse patógeno.

imagem digital de candida auris

Candida auris

Uma das características que tornam C. auris um patógeno de interesse é a alta frequência de resistência a antifúngicos e, de forma especial, a resistência concomitante a múltiplos antifúngicos. Até o momento, foram identificados 323 isolados de C. auris de amostras clínicas no mundo. Destas, 90% eram resistentes a pelo menos um antifúngico e 30% eram resistentes a pelo menos duas classes de antifúngicos.

Os padrões de resistência encontrados foram os seguintes:

  • 90% com resistência a fluconazol;
  • 50% com resistência a anfotericina B;
  • 5% com resistência a equinocandinas;
  • 30% com padrão de multirresistência.

Como se pode observar, mesmo antifúngicos de amplo espectro, como anfotericina B ou equinocandinas, podem não ser eficazes contra organismos dessa espécie. Mais ainda, observou-se que isolados de C. auris podem adquirir resistência a antifúngicos aos quais eram previamente suscetíveis. Tal fato foi observado em isolados de um paciente que, após dois ciclos de tratamento, adquiriram resistência a anfotericina B.

Um dos mecanismos de resistência propostos para esse fenômeno seriam mutações no gene ERG6. Mutações relacionadas a esse gene estão associadas a mudanças importantes no perfil de esteróis que compõem a membrana celular do fungo.

Normalmente, o ergosterol é um componente preponderante na membrana celular fúngica, sendo o alvo de ação da anfotericina B. Os isolados com mutações em ERG6 apresentam uma diminuição dramática da produção de ergosterol, provavelmente por indução de uma via alternativa na produção de esteróis. Dessa forma, a aquisição de alterações genéticas poderia levar à aquisição de resistência à anfotericina B.

Disseminação

Outro motivo para preocupação é o potencial de C. auris em causar surtos, o que é favorecido por algumas características como a persistência em superfícies e a capacidade de colonização de indivíduos por até 1 ano.

Demonstrando essa capacidade, uma das apresentações destacou um surto de C. auris ocorrido em um hospital terciário italiano durante a pandemia de Covid-19. Como em muitos outros hospitais, o aumento na demanda por internações levou a um aumento no número de leitos de enfermaria e CTI no local.

Leia também: Candida auris: Anvisa faz alerta sobre primeiro caso de fungo multirresistente no Brasil

Em maio de 2020, C. auris foi identificada de forma incidental em uma amostra de lavado broncoalveolar de um paciente com Covid-19 que também teve Aspergillus sp. isolado na mesma amostra. Desde então, o hospital passou a monitorizar a incidência de C. auris por meio de swabs inguinal e axilar de rastreio e identificação da espécie por MALDI-TOF.

Durante o período de maio de 2020 a junho de 2021, foram identificados 186 casos de colonização ou infecção por C. auris, sendo 82 em pacientes com Covid-19 e 104 em pacientes sem Covid-19. Desse total, houve 72 mortes, sendo 36 em pacientes com Covid-19 e 36 em pacientes sem esse diagnóstico.

O tempo médio para positivação de swab a partir da admissão foi de 18 dias e, para os que morreram, o tempo médio entre a positivação do swab e o óbito foi de 32,5 dias. Aproximadamente 18% dos pacientes apresentaram hemoculturas positivas para o fungo.

Como fatores de risco, a presença de dispositivos invasivos mostrou-se relevante. Dos 186 casos identificados:

  • 93% possuíam cateter venoso central;
  • 94,6% possuíam acesso venoso periférico;
  • 95,7% possuíam cateter vesical;
  • 80,6% estavam em ventilação mecânica;
  • 36% haviam sido submetidos a procedimento cirúrgico.

Após a identificação do surto, medidas preventivas foram colocadas em prática de forma rotineira, com identificação e isolamento de casos de colonização de C. auris, estabelecimento de protocolo específico para manejo de casos de C. auris e medidas educativas entre os profissionais do hospital.

Após a implementação dessas medidas, a incidência de casos na UTI mais afetada pelo surto caiu de 12,9 casos/1.000 pessoas-dia para 8,1 casos/1.000 pessoas-dia, mostrando a importância dessas medidas no controle da disseminação da espécie.

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