Iniciar o rastreamento aos 40 anos com mamografia reduz mortalidade por câncer de mama?

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Segundo estudo britânico, a resposta é SIM! Ainda sobre o controverso e muitas vezes “inflamado” debate a cerca da melhor idade para iniciar o rastreamento do câncer de mama por mamografia, acaba de ser publicado um importante estudo britânico chamado UK AGE TRIAL.

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Método do estudo

O estudo incluiu 53.883 britânicas de 23 unidades de rastreamento na Inglaterra, Escócia e País de Gales na faixa de 39-41 anos para realizar mamografia anual (grupo de intervenção) até completarem 48 anos e usou como grupo controle 106.953 mulheres (randomização 1:2) que só iniciaram o rastreamento após os 50 anos de idade conforme as diretrizes habituais do NHSBSP (Programa Nacional de Rastreamento de Mama do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido). O desfecho avaliado foi a mortalidade por câncer de mama. O seguimento foi até 2017 alcançando em média 23 anos. O recrutamento ocorreu entre 1990-1994, ainda antes da mamografia digital estar disponível.

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Resultados

Com relação aos resultados, os pesquisadores observaram uma redução significativa da mortalidade por câncer de mama (VINTE E CINCO por cento) com 10 anos iniciais de seguimento com 83 mortes no grupo da intervenção contra 219 no controle (risco relativo [RR] 0,75 [95% CI 0,58–0,97]; p = 0,029). Após esse período inicial não houve diferença significativa na mortalidade, 126 vs 255 mortes foram documentadas (RR 0,98 [0·79–1,22]; p = 0,86). Estudos anteriores e meta-análises avaliavam que a redução de mortalidade era da ordem de 13-16% para o grupo que iniciou precocemente o rastreamento.

Esta atual publicação incluiu mais 6 anos em média de seguimento, e os pesquisadores reforçam a redução da mortalidade nas mulheres que iniciam o rastreamento com cerca de 40 anos sem aumento do overdiagnosis (sobrediagnóstico), tão questionado pelos críticos.

Limitações

Os autores referem algumas limitações do estudo. Primeiro que a intervenção ocorreu entre os anos de 1990 e o início dos anos 2000. Os tratamentos eram os daquela época. O exame incluía apenas uma incidência de mamografia (?!) e desta forma a capacidade de detecção de câncer de mama seria limitada, não podendo ser comparada com as mamografias digitais de hoje em dia com pelo menos 2 incidências (médio-lateral-oblíqua/crânio-caudal). Isto posto, a estimativa dos autores para a redução de mortalidade seria conservadora. Do outro lado, a melhoria dos tratamentos adjuvantes pode reduzir a “eficácia” do rastreamento precoce nos tempos atuais. De qualquer maneira, existe uma vantagem evidente em termos de sobrevida em fazer diagnóstico e tratamento em estádios iniciais, sem falar na redução do impacto social, físico, psicológico de tratamentos caros, agressivos e muitas vezes mutiladores de pacientes em estádios avançados.

Mensagem final

Nem precisa perguntar para as pacientes o que elas preferem, se seria melhor fazer uma cirurgia conservadora, muitas vezes seguida de radioterapia localizada e hormonioterapia e sem quimioterapia, ou fazer uma quimioterapia, cirurgia radical, etc.

No mundo ideal estudos com os atuais exames de mamografia e tratamentos adjuvantes desta era deveriam ser feitos em mulheres com menos de 50 anos, mas não dá para esperar mais 23 anos para descobrir isso. Some-se a isso o fato de que nos países como o Reino Unido apenas 15% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres com menos de 50 anos, já em nosso país este número chega a 30-40% dos casos. Talvez aqui o rastreamento mais cedo seja ainda mais importante.

Se negarmos o rastreamento a essas mulheres jovens, podemos comprometer o diagnóstico precoce de milhares de brasileiras. Mamografia não é perfeita, mas é o melhor exame para rastreamento, e reduzir a mortalidade em 25% é muito relevante. É hora de mudar esse cenário.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Duffy S, Vulkan D, Cuckle H, Parmar D , Sheik S, Smith R A, et al. Effect of mammographic screening from age 40 years on breast cancer mortality (UK Age trial): final results of a randomised, controlled trial. The Lancet. Published online August 12, 2020 doi:10.1016/S1470-2045(20)30398-3.
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