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Na atual pandemia de Covid-19, associada ao coronavírus SARS-CoV-2, têm-se verificado tanto o aumento do consumo de álcool decorrente dos efeitos à saúde mental do isolamento social e lockdown, quanto da própria pandemia. Adicionalmente, com o afrouxamento das restrições, possibilidade de reencontros e comemorações pós-vacinais, o consumo de álcool volta a figurar como um dos combustíveis em nossa sociedade. Uma das questões, além de muitas outras, relacionadas a esse consumo elevado de álcool no período pandêmico e que precisam ser esclarecidas, é o quanto o álcool pode afetar o sistema imunológico e prejudicar os desfechos da doença Covid-19, o tratamento e a eficácia vacinal em nível individual. Afinal, quais os efeitos do álcool na fisiologia da resposta imune? 

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Para fornecer evidências sobre tal questão, retomamos um artigo de revisão publicado por Barr et al. em 2016, período anterior à aceleração atual das numerosas publicações recentes consequentes à pandemia de Covid-19. A revisão reúne os resultados obtidos a partir de estudos in vitro e in vivo realizados em modelos animais e em seres humanos. Apresentamos os principais aspectos citados abaixo. 

Diversos estudos têm descrito um efeito dose-dependente do álcool na saúde humana. O consumo moderado de álcool está associado com menores efeitos inflamatórios e melhores respostas à vacinação, enquanto usuários crônicos de doses elevadas apresentam redução de linfócitos e maior risco de infecções bacterianas e virais. 

O etanol é primeiramente metabolizado no estômago e fígado pela álcool desidrogenase (ADH) e o sistema citocromo P450 2E1 (CYP2E1). Ambas as enzimas convertem o etanol para acetaldeído, o qual é metabolizado a acetato pela acetaldeído desidrogenase (ALDH) nas mitocôndrias. O acetato é então liberado no sangue no qual é oxidado a dióxido de carbono no coração, músculo esquelético e cérebro. O CYP2E1 e catalase (localizada em peroxissomos) podem também metabolizar o álcool no cérebro em acetaldeído. Tal processamento pode também ocorrer no pâncreas, resultando em pancreatite alcóolica. O acetaldeído é o produto tóxico que contribui para o dano tecidual, dependência alcóolica e o uso abusivo de adição. Esse produto pode também se ligar a outras proteínas para formar metabólitos como malondialdeído (MDA) e MDA-acetaldeído (MAA), os quais desempenham dano hepático e estimulam resposta humoral que conduzem à inflamação hepática e fibrose. Adicionalmente, a oxidação do etanol por CYP2E1 resulta na formação de radicais reativos de oxigênio (ROS), os quais em altos níveis levam ao estresse oxidativo que desempenha efeitos danosos diversos incluindo contribuindo para o desenvolvimento de neoplasias, aterosclerose, diabetes e inflamação. 

Os diversos efeitos do álcool sobre o funcionamento do sistema imune

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A modulação da imunidade inata pelo álcool 

O consumo pontual de álcool, com nível sérico aproximado de 130 mg/dL, resulta em aumento da concentração de monócitos em sangue periférico e a produção de TNF-alpha induzida por lipopolissacarídeo (LPS) presente em bactérias Gram-negativas, nos seguintes 20 minutos, mas após 2 a 5 horas, o número de monócitos circulantes foi reduzido e os níveis de da citocina anti-inflamatória IL-10 se elevaram. 

Por outro lado, o uso crônico de etanol modula a função de monócitos/macrófagos, de maneira dose e tempo dependente, via alteração da resposta via receptores Toll-like (TLR), como TLR2/6, TLR4, TLR5, TLR7, TLR9, com consequente prejuízo da resposta ao LPS, à flagelina bacteriana, e da produção de citocinas pró-inflamatórias. Adicionalmente, o etanol reduz, de forma dose-dependente, o processo de esferocitose, e a consequente fagocitose, o qual é fundamental para a resolução de processo inflamatório após infecções. O etanol também leva ao aumento da produção de IL-10 e ao decréscimo de moléculas coestimulatórias CD80 e CD86, com consequente distúrbio à proliferação de linfócitos T e decréscimo de IL-12, prejudicando a resposta envolvendo a apresentação de antígenos por células dendríticas a antígenos bacterianos diversos. Outros fatores também são afetados negativamente como a produção de fator de crescimento hepático (HGF), fator estimulador de granulócitos (G-CSF) e fator de crescimento endotelial (VEGF) por polimorfonucleares.

A modulação da imunidade adaptativa pelo álcool 

O consumo de álcool também têm impacto sobre a imunidade celular e humoral. Já foi descrita a associação do abuso de álcool com a redução da concentração de linfócitos T CD4 e CD8, também associado a dose e tempo-dependente. O uso crônico pesado (90 a 249 bebidas/mês) têm efeito prejudicial superior em comparação ao uso moderado (30 a 89 bebidas/mês) ou leve (< 10 bebidas/mês). Em ensaios com modelos animais, verifica-se apoptose acentuada de linfócitos B e T isolados a partir do timo, baço ou linfonodos quando sob níveis tóxicos de álcool. Adicionalmente, observa-se a alteração do fenótipo de linfócitos T com tendência para estímulo a CF45RO+ de memória em contraste com a redução de células T naive, fenômeno esse associado a ocorrência de doença inflamatória crônica e patologias relacionadas à idade como osteoporose, sarcopenia, doença de Alzheimer, neoplasias e doenças cardiovasculares. A perda de células T naive é comumente associada com prejuízo de resposta eficaz às infecções e vacinação. 

Saiba mais: Estudo sugere que o consumo de álcool ideal estabelecido atualmente não é seguro

O abuso de álcool também resulta no aumento do células T CD8, em consumidores de 23 bebidas/dia por aproximadamente 27 anos, e que persistia por até 10 anos de abstinência subsequentes. Os níveis de imunoglobulina IgA e IgM se elevam em usuários crônicos pesado de álcool (90 a 249 bebidas/mês) comparado aos usuários leves (< 9 bebidas mensais) ou moderados (30 a 89 bebidas mensais), também de forma dose e tempo dependente. Tais achados sugerem que os efeitos danosos hepáticos de acetaldeído e a peroxidação lipídica das membranas por MDA resultam no aumento da imunogenicidade de proteínas e potencial iniciação de respostas autoimune. Os níveis de IgG se encontram reduzidos entre consumidores moderados quando comparados a abstinência. 

Efeitos do álcool sobre a infecção e vacinação 

Os estudos prévios descreveram que o alcoolismo crônico leva a maior susceptibilidade (3 a 7x) e gravidade das infecções virais e bacterianas, especialmente pneumonias bacterianas. Verifica-se também maior incidência de infecção por Mycobacterium tuberculosis entre os usuários crônicos, e progressão de infecções virais como à síndrome da imunodeficiência humana entre pessoas vivendo com HIV e hepatite.

A magnitude da resposta humoral após a vacinação para hepatite B é menor entre alcóolicos quando comparados com controles. Tais achados foram observados também em estudos com modelos animais. 

Por outro lado, curiosamente, o consumo moderado do álcool está relacionado à potencialização da resposta à infecção e vacinação. Em um dos estudos citados na revisão, os animais com consumo moderado de álcool (1 a 2 bebidas/dia) estiveram associados com menor incidência de infecção por vírus respitatórios e aumento da resposta por IgG. Um outro estudo observou uma relação inversamente proporcional entre o maior consumo de vinho com o menor risco de resfriado comum. Os consumidores moderados de cerveja apresentam aumento da produção de citocinas como IL-2, IL-4, IL-10 e IFN-gama e reduzida relação IFN-gama/IL-10. Dentre os usuários crônicos já se verificam efeitos imunossupressores, incluindo redução da resposta de células T a Mycobacterium bovis e do clearance de patógenos bacterianos. 

Os detalhes adicionais sobre esses aspectos considerando os efeitos do consumo do álcool sobre a resposta imune podem ser verificados nas referências citadas abaixo. 

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Barr T, Helms C, Grant K, Messaoudi I. Opposing effects of alcohol on the immune system. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2016 Feb 4;65:242-51. doi10.1016/j.pnpbp.2015.09.001
  • Hedenstierna L, Bellocco R, Ye W, Adami HO, Åkerstedt T, Trolle Lagerros Y, Hedström AK. Effects of alcohol consumption and smoking on risk for RA: results from a Swedish prospective cohort study. RMD Open. 2021 Jan;7(1):e001379. doi:10.1136/rmdopen-2020-001379
  • Kan CK, Ragan EJ, Sarkar S, Knudsen S, Forsyth M, Muthuraj M, Vinod K, Jenkins HE, Horsburgh CR, Salgame P, Roy G, Ellner JJ, Jacobson KR, Sahu S, Hochberg NS. Alcohol use and tuberculosis clinical presentation at the time of diagnosis in Puducherry and Tamil Nadu, India. PLoS One. 2020 Dec 17;15(12):e0240595. doi10.1371/journal.pone.0240595
  • Takkouche B, Regueira-Méndez C, García-Closas R, Figueiras A, Gestal-Otero JJ, Hernán MA. Intake of Wine, Beer, and Spirits and the Risk of Clinical Common Cold. American Journal of Epidemiology. 2002; 155(9):853–858. doi: 10.1093/aje/155.9.853
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