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mão de médico aplicando vacina pra covid-19 em braço de paciente

Dia da Imunização: como é a produção de uma nova vacina e o que falta para vacina da Covid-19? [podcast]

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Hoje, 9 de junho, é comemorado o Dia da Imunização no Brasil, por isso, preparamos um podcast especial!Nossa editora de Clínica Médica, Dayanna Quintanilha, conversou com a imunologista Mariana Stoll sobre o processo de produção de novas vacinas, qual a diferença da vacinação da imunoterapia e como estão os estudos e testes das vacinas contra a Covid-19. Confira:

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Leia também: Dia da Imunização: como a vacina para Covid-19 se saiu em seu primeiro teste em humanos?

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Confira abaixo a transcrição do podcast sobre vacina da Covid-19

Dayanna Quintanilha: Olá, pessoal. Sejam bem-vindos ao podcast da PEBMED. Meu nome é Dayanna Quintanilha, sou especialista em Clínica Médica e Editora do Portal PEBMED. Hoje é dia 9 de junho, quando é comemorado o Dia Nacional da Imunização, que o objetivo é conscientizar as pessoas sobre a importância das vacinas na prevenção de doenças. No Brasil, as ações são coordenadas pelo Programa Nacional de Imunização, que foi instituído desde 1973 e é referência mundial de política pública em saúde. As vacinas foram fundamentais no combate a doenças ao longo da história da medicina. Nós conseguimos pensar em sarampo, poliomielite, tétano, que tiveram suas incidências reduzidas expressivamente com o uso de vacinas. Mas quando surgiram os primeiros vestígios do uso de vacinas? Isso ocorreu no século X, na China, mas na teoria era usado um pouquinho diferente. Os chineses trituravam as cascas de feridas provocadas por varíola e assopravam o pó com o vírus morto no rosto das pessoas. Foi só em 1798 que o termo vacina surgiu pela primeira vez. Isso ocorreu por conta de uma experiência de um médico e cientista inglês chamado Edward Jenner, ele ouviu alguns relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola por já terem tido contado com a varíola bovina. A varíola bovina, ela tem um impacto menor no corpo humano. Ele então pensou na seguinte experiência: se eu usar a varíola bovina no ser humano, ele consegue ter algum tipo de imunidade ao vírus da varíola? E ele fez isso, ele introduziu o vírus da varíola bovina em um menino de oito anos e percebeu que aquele rumor, de fato, tinha alguma base científica. Foi aí que surgiu a palavra vacina, que deriva do termo variola vacinae, que é o nome científico dado à varíola bovina. Em 1881, o cientista francês Louis Pasteur começou a desenvolver uma outra geração de vacinas. Agora ele já vai pensar em combater outras doenças, no caso, a cólera aviária e o carbúnculo e ele pega o termo vacina para batizar a sua recém criada substância, homenageando o cientista Jenner. A partir de então, as vacinas começam a ser produzidas em larga escala, num modelo parecido com o que nós conhecemos hoje. Em tempos de pandemia de Covid-19, as vacinas acabaram voltando a ser muito comentadas e esperadas. Como que produzimos uma vacina? Será estamos próximos de encontrar, de fato, uma prevenção para Covid-19? E vamos hoje comentar um pouco dessas perguntas e convidamos uma especialista em imunologia para nos ajudar com essas questões. Mariana, seja muito bem-vinda ao nosso podcast, vou deixar um tempinho para você se apresentar, para você falar um pouco da sua carreira, do que você faz.

Mariana Stoll: Boa noite a todos, meu nome é Mariana Stoll, eu sou alergista e imunologista, com título de especialista pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, tenho Mestrado em materno-infantil pela UFF – Universidade Federal Fluminense. Vou primeiro falar um pouquinho da rotina do alergista, eu sou alergista e imunologista, e é uma vasta gama de doenças que nós tratamos. Trata os pacientes com atopia, renite, asma, dermatite atópica, os pacientes com alergia alimentar e os pacientes com imunodeficiência, tanto primárias quanto secundárias.

Dayanna Quintanilha:  É que hoje vamos falar muito sobre a questão da vacina, por conta do dia da imunização e nós vamos começar perguntando como que uma vacina é produzida.

Mariana Stoll: As vacinas são produzidas a partir de microrganismos inativados e esses microrganismos, eles serão capazes de simular uma resposta imunológica semelhante àquela produzida pela infecção natural. Só que sem causar a doença e sem causar as consequências da doença e existem diversas formas, vamos dizer assim, de preparar esses antígenos e transformá-los em vacinas. Um tipo de vacina são as vivas atenuadas, essas vacinas vivas, por exemplo, elas são constituídas de vírus ou bactérias que serão enfraquecidos através de passagens em meios de cultura especiais, de forma que o antígeno vai permanecer muito imunogênico, mas pouco virulento. Elas geralmente são mais eficazes em induzir a imunidade protetora porque elas provocam uma resposta imune, tanto inata quanto adaptativa, muito parecidas com a infecção natural produzida. Elas conferem uma imunidade mais específica, uma imunidade mais duradoura, de modo que a imunização que é feita, lá atrás na criança, é suficiente para proteger ao longo da vida. Normalmente essas vacinas vivas precisam de uma dose só e essa dose única, ela já oferece uma boa resposta imune. A recomendação de uma segunda dose, que às vezes acontece, por exemplo, na tríplice viral, ela ocorre devido ao fato de uma pequena porcentagem das pessoas não responderem adequadamente. Os eventos adversos dessas vacinas são mais tardios, eles assemelham-se ao quadro causado pela infecção, como se fosse uma infecçãozinha subclínica, mas quando ocorrem são leves e raros. A resposta a uma vacina atenuada, ela pode interferir na resposta de uma outra vacina atenuada, então você tem que dar um intervalo, no mínimo, de 28 entre elas, ou aplicar as duas no mesmo dia. Já as vacinas inativadas, elas são compostas de microrganismos não vivos ou das frações desse microrganismo e elas não se replicam e nem provocam doenças subclínicas. Os antígenos, eles são menos imunogênicos e, em geral, elas vão precisar de um adjuvante para aumentar a exposição do antígeno ao sistema imune e gerar uma memória e uma proteção duradoura. Elas também precisam de mais doses e reforços periódicos. A resposta de uma vacina inativada não interfere na outra e elas podem ser aplicadas sem um intervalo mínimo. Geralmente elas não são contraindicadas nem em gestantes, nem em imunodeficiente, já que não causam infecção. Dentre essas vacinas inativadas, podemos ter aquelas com microrganismos inteiros inativados por meio físico, como o calor ou químico, que poderia ser o formaldeído, exemplo da pertussis, toxina os microrganismos inativados, a exemplo do toxoide tetânico e difitérico, vacinas de subunidades ou de fragmentos de microrganismo, por exemplo, a vacina da influenza. Vacinas pela tecnologia de engenharia genética em que o segmento de um gene de um microrganismo codificador de uma proteína importante para a imunidade, ele é inserido num vetor inerte ao ser humano e esse, ao se multiplicar, vai produzir grandes quantidades de antígeno, estimulando o sistema imune, por exemplo a hepatite B e o HPV. Atualmente, temos as vacinas de DNA, que é um método promissor, mas que ainda tem ensaios clínicos, que se inocula em um plasmídeo que contém um DNA que vai codificar um antígeno protéicos, levando a resposta celular contra o antígeno. Temos também as vacinas constituídas por polissacarídeos, um exemplo é a Pneumo 23 e aqui, vale explicar que os polissacarídeos, eles são antígenos independentes de célula T ou seja, eles estimulam as células B sem ajuda do T Help, então eles tendem a induzir respostas de baixa afinidade, são pouco imunogênicos. E a imunidade, ela é ruim, principalmente, em criança abaixo de dois anos. Essa imunidade de curta duração, dura, em média, de três a cinco anos. Para produzir uma resposta de anticorpo de alta afinidade, o que pode fazer é acoplar ao polissacarídeo um antígeno proteico e assim formamos as vacinas conjugadas, por exemplo, a vacina Pneumo 13. Temos que lembrar que o conceito de vacina conjugada, que é associar um antígeno proteico à vacina antipolissicarídeo para aumentar a sua imunogenicidade, é diferente do conceito de vacina combinada. Vacinas combinadas são associações de antígenos independentes em uma mesma composição farmacológica, por exemplo, a vacina penta ou a vacina tríplice bacteriana. Lembrando que não podemos pegar a vacinas diferentes e misturar na mesma seringa para aplicar no paciente.

Confira o Calendário Nacional de Vacinação

Dayanna Quintanilha: Ótimo Mari, você acabou fazendo uma revisão bem bacana de todas as vacinas e de todas as formas de vacinas e eu tenho uma questão: muitos pais acabam tendo medo de vacinar os seus filhos por conta de reações. Eu queria saber quais são as vacinas que podem dar essas reações e como devemos orientar o nosso paciente?

Mariana Stoll: O diagnóstico correto das reações adversas é muito importante. Tanto para nós prevenirmos reações futuras quanto para evitarmos restrição desnecessária. Dentre as reações adversas, nós as dividimos em três tipos: as reações de hipersensibilidade, que são as reações alérgicas imediatas, aquelas que são causadas, normalmente, minutos a horas. Elas são raras, normalmente são mediadas pela IgE e elas causarão sintomas imediatos, como urticária, angioedema, até uma anafilaxia e a formação do IgE, ela pode ocorrer a qualquer componente da vacina. A grande característica dessa reação, como eu falei, ela ser imediata, normalmente nos primeiros minutos, primeiros 15 minutos até uma hora, podendo ocorrer até quatro horas depois da aplicação. Nesses casos, quando temos uma suspeita clínica muito importante, lembrando mais uma vez que é rara, podemos fazer o diagnóstico através do pic teste e do teste intradérmico, com a própria vacina ou uma outra forma é investigar os componentes da vacina, por exemplo, o ovo, a gelatina, com testes in vivo ou in vitro. Então, por exemplo, aqueles pacientes que têm já uma alergia aí já mediada ao ovo, que nós já sabemos que o paciente é sensibilizado, eles terão uma conduta diferente na aplicação da vacina da febre amarela. Não quer dizer que ela não será aplicada. Ela será aplicada, mas de uma forma diferente. Temos as reações alérgicas tardias, que podem ocorrer horas a dias depois e elas não são IgS imediatas, como exemplo, temos a doença do soro-like, o eritema nodoso, o rash maculopapular, o eritema multiforme. Lembrar que muitas pessoas, pelo teste de contato que é aquele teste em que colocamos um adesivo nas costas e nesse teste, testamos uma substância que se chama timerosal. O timerosal está presente como um componente de algumas vacinas, por exemplo, a vacina da influenza e um teste positivo, um teste de contato alérgico ao timerosal não contraindica a aplicação da vacina da influenza. Nós alergistas costumamos orientar o paciente normalmente que, no máximo, ele pode ter uma reação local que não contraindica fazer. E vamos ter as reações não imunológicas, que são as mais comuns, que são as reações locais, os nódulos subcutâneos depois da vacina que contém alumínio, a febre, a irritabilidade e as reações vasovagais. Os eventos adversos associados às vacinas sempre devem ser reportados ao centro de vigilância nacional, por exemplo, uma anafilaxia, uma encefalite, uma crise convulsiva, dentre outros que são específicos de cada vacina.

Dayanna Quintanilha: Mariana, nós sabemos que o alergista trabalha muito com a receita que, até o leigo chama de vacinas, para alergia e tudo o mais. Queria que você falasse um pouco sobre as diferenças entre essas vacinas que são aplicadas de rotina, no consultório, para pacientes que têm alergia e as vacinas que nós temos no Programa Nacional de Imunização.

Mariana Stoll: As vacinas do Programa Nacional de Imunização, ela é uma medida preventiva contra doenças infecciosas. Então, é importante que o médico avalie a situação vacinal dos seus pacientes, recomende as vacinas indicadas para cada faixa etária, não só de acordo com as vacinas disponíveis no PNI, mas também aquelas recomendadas pelo CDC ou pela SBIm, de acordo com cada faixa etária ou cada grupo. Os benefícios da imunização rotineira são indiscutíveis para a população geral, mas faz-se necessário um maior cuidado dessas práticas nos pacientes, por exemplo, com comprometimento do sistema imunológico e com doenças crônicas. E aí, cada caso tem que ser avaliado individualmente. Por exemplo, um paciente só com rinite alérgica, ele não é contemplado com a vacina da gripe pelo Programa Nacional de Imunização, mas isso não significa que ele não deveria fazer a vacina H1N1. Por quê? Ele não vai poder tomar sem custo no posto de saúde, mas é importante que o médico oriente esse paciente que existe a opção de ele fazer. Já os pacientes com asma, com diabetes, hipertensão, eles já são contemplados na campanha. Já nos pacientes com imunodeficiência, tanto primária quanto secundária, a imunização se faz necessária para protegê-los, pois uma infecção que em um paciente imunocompetente pode ser assintomática, no paciente imunodeficiente pode ser grave. Então nesses grupos, as vacinas poderão ter suas recomendações alteradas, tanto em relação quanto à indicação quanto às contraindicações. Como regra geral, as vacinas inativadas podem ser administradas, com segurança, nos imunocomprometidos e as vacinas de vírus vivos atenuados são contraindicadas, mas isso deve ser avaliado individualmente porque, por exemplo, desordens do complemento não terão nenhuma contraindicação. Esses pacientes com situações especiais, imunodeficientes graves, eles podem ser encaminhados ao CRIE, que são Centros de Referência de Imunobiológicos e Especiais. No Rio de Janeiro, nós temos o CRIE do Hospital Rocha Maia e o CRIE da Fiocruz, o médico pode encontrar a ficha de encaminhamento ao CRIE no site ou mesmo fazer o encaminhamento no receituário e o paciente vai ser melhor atendido nesses locais, lá vai ter o especialista. Uma questão importante é falar do corticoide porque as bombinhas utilizadas para asma, o corticoide nasal utilizado no tratamento da rinite, eles não são contraindicação para nenhuma vacinação. Em relação ao corticoide, nós consideramos um potencial efeito imunossupressor, quando há uso de corticoide em altas doses, ou seja, maior que 20 mg/dia ou maior que 2 mg/kg/dia por mais de 14 dias. Somente nesses casos evitamos as vacinas de vírus atenuados por, no mínimo, 30 dias após a suspensão do medicamento. Já na minha área, dispomos de um tratamento com a imunoterapia para tratar as atopias, que são asma, rinite, dermatite atópica, alergia a picada de insetos e até alergia alimentar. A população geral costuma chamar de “vacina”, mas o nome correto é imunoterapia e não tem nada a ver com controle de doença infecto contagiosa e, também não é um tratamento indicado para todo mundo. Existem indicações muito precisas. A imunoterapia é um procedimento terapêutico que dispomos há mais de 100 anos, então não é um tratamento novo, como de vez em quando nós vemos aí nos jornais, ele é um tratamento que muda o curso natural da doença alérgica. As doenças alérgicas são multifatoriais, então a imunoterapia não é um milagre e ela nem entra sozinha. Ela é um espectro do tratamento e em relação à atopia, eu costumo falar que ela é um pilar do tratamento, do controle do ambiente, o tratamento farmacológico e o terceiro pilar, que é a imunoterapia.

Dayanna Quintanilha: E falando um pouquinho mais das vacinas, eu queria te perguntar quais são as vacinas, além da do Covid-19, que são mais aguardadas atualmente? Quais as que são os maiores desafios hoje?

Mariana Stoll: Em relação a vacina, uma potencial e promissora e aguardada, é a vacina da dengue, que até agora, a única vacina que temos contra a dengue, licenciada em 21 países, incluindo o Brasil, é uma vacina da Sanofi, que foi lançada em 2015. Ela é uma vacina produzida com a tecnologia de DNA recombinante, que apresentou uma eficácia muito variada, entre 50 a 80%, dependendo do tipo de vírus que causa a infecção, com uma média de proteção de 60% sobre o tipo 4, mas insatisfatório para o tipo 2. Essa vacina é recomendada apenas para pessoas com idade entre 9 e 45 anos, que tiveram a dengue, já que tem uma discussão que ela poderia causar dengue grave em quem não se expôs aos vírus, então ainda temos essa dúvida. Essa vacina exige três doses, a serem aplicadas ao longo do ano, para ela ser plenamente eficaz e pouco se sabe sobre o efeito protetor. Um artigo publicado pela Sanofi na revista Vacine mostrou que ela poderia manter o efeito protetor por até seis meses, em crianças maiores de 9 anos já expostas ao vírus. É bem importante falarmos dessa vacina porque o Instituto Butantã, que é um instituto brasileiro, está pesquisando uma vacina da dengue, publicou os resultados na fase dois, esse ano, em março no The Lancet. E essa etapa, o que ele mostrou, é que o objetivo dele foi avaliar a segurança da vacina em pessoas entre 2 e 59 anos e os dados disponíveis até o momento, é que é uma vacina segura, que é uma vacina que induziu respostas equilibradas contra os quatro sorotipos, tanto em indivíduos que já tiveram a dengue, quanto os que não tiveram. E ela utiliza apenas uma dose. Então, esses testes também demonstraram que ela pode ativar a produção, tanto de anticorpos, que são as imunoglobulinas, quanto as células de defesa, por exemplo, as células T, linfócito TCD8, algo que não foi avaliado pelas outras candidatas. Apesar de promissora, atualmente, a principal fonte de prevenção à dengue ainda é o combate aos mosquitos eliminando os criadouros, de forma coletiva, com a participação comunitária, e o estímulo a políticas públicas de saneamento básico e uso racional dos inseticidas. Um outro desafio que nós temos é o HIV, que mesmo após 40 anos de estudos, a única conclusão que temos é que a camisinha ainda é a melhor vacina.

Dayanna Quintanilha: Certo. Nós sabemos que para produzir uma vacina tem que fazer alguns estudos, estudos grandes até, isso acaba demorando também, esse é um dos grandes desafios que temos com relação à vacina do Covid-19, que é o tempo que vamos conseguir para chegar a uma vacina de fato, que possamos confiar. Então eu queria ver se você poderia falar um pouquinho para nós sobre as fases de produção de uma vacina.

Mariana Stoll: Isso. O processo de pesquisa de desenvolvimento de uma vacina é um processo demorado, de alto investimento e associado a riscos elevados. A primeira etapa corresponde à pesquisa básica, onde terão as propostas, onde as vacinas serão identificadas. Já a segunda etapa são as realizações dos testes pré-clínicos, tanto in vitro quanto in vivo, e que tem por objetivo demonstrar segurança e potencial imunogênico da vacina, normalmente, em modelos animais. A terceira etapa são os ensaios clínicos, que é a fase mais longa e mais cara do processo. Esses ensaios clínicos, também chamado de trials, são divididos em fase um, dois, três e quatro. A fase um é o primeiro estudo a ser realizado em seres humanos. Geralmente tem por objetivo principal demonstrar a segurança da vacina e ele vai ser realizado em poucos indivíduos. Já a fase dois tem por objetivo estabelecer a imunogenicidade. A vacina será aplicada em um número maior, em torno de 1.000, por aí. A fase três é a última fase dos estudos antes da obtenção do registro sanitário e ela tem por objetivo demonstrar a sua eficácia. A fase quatro é a vacina disponibilizada para a população. Então, seria muito importante um tempo na fase três muito adequado, um tempo longo de dois, três anos porque quando vamos para a fase quatro passamos para um nível populacional. E aí vem um grande problema, porque quando você faz a vacina em milhares de pessoas, milhões de pessoas, você pode encontrar problemas que você não encontrou, por exemplo, com um grupo de 20 mil participantes.

Dayanna Quintanilha: Então, Mariana, você falou para nós sobre as fases para uma produção de vacina e nós entendemos, de acordo com o que você falou, porque a vacina demora tanto tempo para ser produzida e enquanto nós esperamos por essa vacina, eu tenho visto, na mídia, que muitos países estão adotando uma estratégia de cobrar passaportes imunológicos para as pessoas entrarem nos países. Você é a favor desse tipo de prevenção ou não?

Mariana Stoll: Então, Day, obrigada pela pergunta porque essa é uma pergunta que cabe muita discussão e nós, médicos, temos que estar preparados para esse debate. Alguns países têm cobrado esse passaporte imunológico, que é a presença de anticorpo para a pessoa poder entrar no país, mas isso é uma questão muito mais política do que médica e imunológica. Explicando um pouquinho a infecção viral, a imunidade contra o vírus depende tanto da imunidade inata, que tem um fator super importante na defesa contra as infecções virais, quanto a imunidade por célula T e, também, a presença de anticorpos. Então, mesmo que a pessoa desenvolva a produção de anticorpos, mesmo que nós façamos uma vacina e ela seja imunogênica, que leve à produção de anticorpos, nós ainda não sabemos quanto tempo o anticorpo vai durar e quanto tempo essa vacina vai suscitar a informação de anticorpos neutralizantes, de fato, protetores. É preciso muito mais do que a mensuração dos anticorpos séricos. É preciso conhecer a capacidade neutralizante dos anticorpos. Além disso, a proteção a longo prazo requer persistência dos anticorpos e geração de células de memória imunológica. Esses parâmetros sim, são essenciais para avaliar a imunidade contra o vírus. Então, a simples presença de anticorpos, sejam eles IgG, IgA ou IgM, nem sempre é suficiente para uma proteção robusta contra o vírus, então complicado um pouco essa questão do passaporte imunológico. Na minha opinião, é mais uma questão política.

Dayanna Quintanilha: Ótimo. Esclareceu bem. Eu tenho mais uma pergunta que todo mundo sempre me faz e que eu acho bacana que você compartilhe aí para nós. Nós estamos próximos de conseguir uma vacina? Quanto tempo em média é necessário para se produzir uma vacina?

Mariana Stoll: Nós ainda não temos essa resposta. Um trial normal leva em torno de cinco a dez anos para ser concluído, então, o desenvolvimento de uma vacina bem sucedida, ele é muito complexo, principalmente quanto a um novo patógeno, como quando o conhecimento científico sobre ele ainda é bem pequeno e incipiente. Quando fazemos uma vacina nova, a taxa de sucesso dos candidatos à vacina é mais ou menos 10%, desde os estudos pré-clínicos até conseguirmos o licenciamento da mesma. Então ainda é cedo para falar. Temos em torno de mais de 100 candidatos de vacinas para Covid nessa fase pré-clínica e as vacinas em estudo, aprovadas em trial, nós temos dez e que elas estão em fase um e fase dois e nós ainda não temos um resultado definitivo sobre elas.

Dayanna Quintanilha: Entendi. Eu li essa semana, na mídia, falando sobre uns testes que terão aqui no Brasil, que é um teste que a Anvisa autorizou, que é uma vacina que foi produzida em Oxford, parece que chegaram alguns lotes aqui no Brasil. Como esses estudos são feitos na população?

Mariana Stoll: O procedimento foi aprovado pela Anvisa na terça-feira, 2 de junho, no Diário Oficial da União, então, de acordo com a Anvisa, para a realização de qualquer pesquisa clínica envolvendo seres humanos, nós precisamos, necessariamente, da autorização dos comitês de ética em pesquisa ou da CONEP, que é a Comissão Nacional de Ética e Pesquisa. Os estudos iniciais não clínicos em animais e aqueles estudos em fase um, nos humanos para avaliar a segurança da vacina, já foram realizados na Inglaterra e os resultados demonstraram que o perfil de segurança foi aceitável. Então agora vamos trazer esses estudos para o Brasil para nós ampliarmos o número de pessoas e a população que vai receber. A vacina, que nessa semana, entrou para a terceira fase dos testes clínicos, vai ser aplicada, pelo menos, em 10 mil pessoas, em todo o mundo. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, os testes serão iniciados ainda esse mês e serão administradas em 2 mil voluntários que não tiveram contato com o novo coronavírus, lá em São Paulo e aqui no Rio, os dois estados que concentram o maior número de infectados. Para a etapa dos testes em São Paulo, a UNIFESP vai recrutar mil voluntários que estejam na linha de frente do combate à Covid-19, uma vez que eles são os mais expostos a contaminação. Um dos critérios para eles participarem é que eles sejam soronegativos, ou seja, não tenham contraído a doença anteriormente.

Dayanna Quintanilha: Bom, Mariana, muito obrigada pela sua participação aqui no podcast, foi muito esclarecedor, eu, de fato, aprendi muito conversando contigo, eu estava com algumas dúvidas com relação a esses testes que começaremos a ter aqui no Brasil. Imagino que muita gente esteja se perguntando também a respeito deles e nós estamos nessa expectativa de conseguir uma vacina e acho que esse tema foi maravilhoso nós conversarmos hoje, que é o Dia Nacional da Imunização. Então agradeço muito pela sua participação e que você possa retornar qualquer dia para conversarmos mais sobre imunologia.

Mariana Stoll: Dayanna, eu que agradeço. Muito obrigada pelo convite, foi um prazer participar. Só um comentário em relação às vacinas, nós estamos tendo um fast track, os estudos que a fase um dura em torno de 6 meses a 12 meses, nós temos feito ela em 28 dias, em um mês, então nós não temos um fator tempo para desenvolver as vacinas, nós não temos um medicamento de resgate para Covid, caso tenha algum efeito colateral, não temos um tratamento específico, mas por outro lado, temos a tecnologia e muito investimento a nosso favor. Então boas energias, pensamento positivo que vamos superar essa pandemia. Obrigada mais uma vez.

Dayanna Quintanilha: Então é isso pessoal, obrigada a todos que nos acompanharam até aqui. Não deixem de acessar a nossa Central Coronavírus no Portal PEBMED, que é onde nós temos divulgado todas as novidades a respeito do tema, inclusive, se surgir qualquer coisa nova a respeito de vacinas, nós publicaremos lá, além disso, no aplicativo Whitebook, nós estamos com uma sessão nova, que é só para Covid-19, essa sessão é gratuita e eu tenho certeza que vai te ajudar muito na tomada de decisão segura na hora dos plantões. Um forte abraço a todos e até a próxima.

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